7. Fatos políticos, econômicos e sociais do Maranhão na segunda metade do século XX

Cronologia integrada das transformações políticas, econômicas e sociais do Maranhão entre 1951 e 2000, com relações causais e marcos de maior incidência.

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Fatos políticos, econômicos e sociais do Maranhão na segunda metade do século XX

A pergunta que organiza o período

A segunda metade do século XX no Maranhão não cabe em três histórias separadas — uma política, outra econômica e outra social. As mudanças se encadearam: disputas pelo poder moldaram políticas de integração e de terra; infraestrutura e grandes projetos deslocaram atividades e populações; urbanização, conflitos territoriais e novas organizações sociais, por sua vez, alteraram a arena política.

Para a prova, pense sempre em quatro perguntas:

  1. quem controlava o poder e como esse controle mudou?
  2. que infraestrutura e atividades econômicas ganharam peso?
  3. quem se deslocou, ganhou espaço, perdeu acesso ou se organizou?
  4. o que foi ruptura e o que permaneceu?

O recorte desta unidade vai de 1951 a 2000. O ano de 1951 funciona como ponte porque a grande mobilização de São Luís expôs a crise do sistema vitorinista; o ano de 2000 fecha o século e permite enxergar o resultado acumulado: maioria urbana, corredor exportador consolidado e novas formas de organização social, sem eliminação das desigualdades.

1. 1951–1965: contestação social sem troca imediata da hegemonia

A Greve de 1951: crise política que ganhou base social

A eleição estadual de 3 de outubro de 1950, disputada entre Eugênio Barros e Saturnino Belo, permaneceu sob contestação. A literatura e a oposição registraram denúncias de anulação fraudulenta de votos, mas a formulação segura é resultado contestado e denúncias de fraude, não “fraude judicialmente comprovada”.

Saturnino morreu em janeiro de 1951. Eugênio tomou posse em 28 de fevereiro, e São Luís entrou na primeira fase da chamada Greve de 1951. O movimento tinha objetivo político-eleitoral imediato, mas foi mais amplo que uma disputa entre partidos: trabalhadores, estudantes, comerciantes, mulheres, jornalistas e lideranças políticas participaram da mobilização. Carestia e precariedade de serviços urbanos ampliaram a adesão.

A greve ocorreu em duas fases, separadas por meses. A primeira começou com a posse de Eugênio e cessou em março, quando ele se licenciou. Em setembro, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral que manteve o diploma, Eugênio reassumiu o exercício do governo e uma segunda mobilização ocorreu. Portanto, expressões memoriais como “34 dias” não significam greve contínua de fevereiro a outubro.

O ponto mais importante é o resultado: 1951 desgastou a legitimidade do grupo vitorinista, mas não o derrubou. Eugênio preservou o mandato e a rede política continuou operando.

Vitorinismo: rede, não governo pessoal contínuo

Vitorinismo designa uma hegemonia política articulada por Vitorino Freire mediante partidos, chefias municipais, governadores aliados, mandatos legislativos e conexões federais. Não significa que Vitorino tenha governado pessoalmente o Maranhão durante todo o período.

Essa distinção prepara a ruptura de 1965: a greve foi um grande momento de resistência, mas a derrota eleitoral decisiva da hegemonia vitorinista viria depois.

Economia e sociedade nos anos 1950 e início dos 1960

No mesmo período, atividades tradicionais — indústria têxtil, arroz e cadeia do babaçu — conviviam com dificuldades de competitividade e abastecimento. A integração rodoviária e a política regional ganharam importância. Em 1959, a lei que criou a SUDENE incluiu o Maranhão em sua área de atuação.

No oeste, Imperatriz cresceu como ponto de circulação e de expansão de novas frentes econômicas. No campo, conflitos por terra e formas de organização de trabalhadores ganharam visibilidade. A Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão surgiu em 1956, e o Movimento de Educação de Base iniciou atuação no começo dos anos 1960, ligando educação, organização comunitária e sindicalização rural.

O golpe de 1964 alterou esse ambiente: organizações e lideranças sofreram repressão, enquanto a disputa pelo controle político estadual caminhava para a eleição de 1965.

2. 1965–1979: nova coalizão política, integração territorial e conflito fundiário

1965: ruptura eleitoral; 1966: início do governo Sarney

Em 3 de outubro de 1965, José Sarney venceu a eleição para governador por uma frente de oposição ao grupo vitorinista e tomou posse em 1966. A data de 1965 marca a ruptura da hegemonia eleitoral anterior; ela não prova desaparecimento instantâneo de toda influência de Vitorino Freire.

O novo governo apresentou o projeto do “Maranhão Novo”, associado à modernização administrativa e à integração econômica. A expressão deve ser lida criticamente: modernizar estruturas e ampliar infraestrutura não significa distribuir de forma equivalente terra, renda e serviços.

Ditadura, bipartidarismo e facções

Com a reorganização partidária do regime militar, a ARENA reuniu a base governista e o MDB concentrou a oposição legal. A existência de apenas duas siglas não eliminou disputas internas: grupos estaduais continuaram competindo dentro das próprias legendas.

Nos anos 1970, governadores como Pedro Neiva de Santana, Nunes Freire e João Castelo chegaram ao cargo no sistema de eleição indireta então vigente. A reforma partidária de 1979 encerrou formalmente o bipartidarismo e abriu caminho para novas siglas na década seguinte.

Terra, pecuária e uma modernização que produziu conflito

A política fundiária estadual é decisiva para conectar economia e sociedade. A Lei estadual nº 2.979/1969 disciplinou terras do domínio do Estado, e a criação da Companhia Maranhense de Colonização em 1971 inseriu-se na reorganização da ocupação territorial.

Nesse contexto, pecuarização — expansão da criação bovina sobre áreas antes ocupadas por agricultura, extrativismo ou uso comunitário — e valorização fundiária aumentaram pressões sobre posseiros, comunidades tradicionais e pequenos produtores. A oposição entre “progresso” e “atraso” é simplificadora: a mesma integração que ampliava produção e circulação podia concentrar terra e produzir deslocamentos.

Esse é um caso de modernização conservadora: mudança técnica, produtiva e infraestrutural sem transformação equivalente da estrutura de propriedade e das desigualdades.

Porto e integração

A implantação e expansão do Porto do Itaqui reforçaram a conexão marítima do Maranhão com cadeias regionais e externas. Há divergência entre registros institucionais sobre microdatas do início das atividades; para esta unidade, o que importa é o papel do porto na integração logística durante os anos 1970, não decorar uma data isolada.

3. Anos 1980: grandes projetos, retorno do voto direto e novas formas de organização

O corredor de Carajás e a industrialização pesada

Em 1980, o Decreto-Lei nº 1.813 instituiu o regime especial de incentivos do Programa Grande Carajás. O corredor ligou a mineração do Pará ao Maranhão por ferrovia e terminais marítimos, ao mesmo tempo que estimulou outras atividades industriais e logísticas.

Três marcos ajudam a montar a cronologia:

  • o complexo de alumina e alumínio da Alumar foi implantado a partir de 1980 e inaugurado em 1984;
  • a EFC foi inaugurada em 1985;
  • o Terminal Marítimo de Ponta da Madeira entrou em operação em 1986.

Não confunda as peças. O Porto do Itaqui é porto público; Ponta da Madeira integra o corredor mineral; e a Alumar possui seu próprio complexo industrial e portuário. Estão geograficamente próximos em São Luís, mas não são a mesma instalação.

Os grandes projetos aumentaram exportações, demanda por infraestrutura e circulação de pessoas. Também pressionaram solo urbano e territórios rurais. A relação correta é dupla: expansão econômica e logística coexistiu com custos territoriais e sociais.

1982 e a volta da eleição direta para governador

A Emenda Constitucional nº 15/1980 restabeleceu o voto direto para governador. Em 1982, Luís Rocha foi eleito no Maranhão. Esse marco encerrou a sequência de governadores escolhidos indiretamente durante a fase anterior.

A reorganização partidária também mudou os nomes: a ARENA deu lugar, entre outras continuidades, ao PDS; o MDB reorganizou-se como PMDB; e dissidências posteriores alimentaram a Frente Liberal e o PFL. Para prova, mais importante que decorar todas as migrações é entender que a abertura política reordenou siglas e alianças sem apagar de imediato redes anteriores.

Em 1986, Epitácio Cafeteira venceu a eleição estadual. Em 5 de outubro de 1989, foi promulgada a Constituição do Estado do Maranhão, já no ambiente inaugurado pela Constituição Federal de 1988.

Direitos novos, efetivação desigual

A Constituição de 1988 ampliou direitos sociais e reconheceu direitos territoriais indígenas e quilombolas. Isso criou instrumentos jurídicos decisivos, mas reconhecimento constitucional não equivale a titulação, demarcação ou acesso uniforme a serviços de forma automática.

No campo, a Comissão Pastoral da Terra, comunidades, sindicatos e outras organizações atuaram em conflitos agrários. No Médio Mearim, a Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão foi fundada em 1989, articulando agroextrativismo, organização comunitária e luta pela terra.

4. Anos 1990–2000: consolidação urbana, reformas e movimentos territoriais

Alternância eleitoral e reeleição

Em 1990, Edison Lobão foi eleito governador. Em 1994, Roseana Sarney venceu a disputa em segundo turno. A Emenda Constitucional nº 16/1997 passou a admitir uma reeleição consecutiva para chefes do Executivo, e Roseana foi reeleita em 1998 no primeiro turno.

A pegadinha é dupla: 1994 ≠ 1998 e segundo turno ≠ primeiro turno. A regra constitucional de reeleição não existia na eleição de 1994; ela surgiu antes do pleito de 1998.

Exportação, privatizações e permanências

Nos anos 1990, o corredor exportador já combinava minério, alumina, alumínio, produtos siderúrgicos e, crescentemente, grãos. A expansão da agricultura mecanizada no sul do estado reforçou a integração de Balsas a mercados nacionais e externos.

O período também foi marcado por reformas patrimoniais. A Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997. No Maranhão, o controle da Companhia Energética do Maranhão foi adquirido por grupo privado em 2000.

Essas mudanças não apagaram atividades tradicionais. Babaçu, agricultura familiar, comércio e serviços continuaram coexistindo com grandes empreendimentos. A transformação econômica do século foi, portanto, acumulativa e desigual, não uma substituição instantânea de um setor por outro.

Quebradeiras de coco e organização territorial

No início dos anos 1990, a articulação das quebradeiras de coco babaçu ganhou escala interestadual. O primeiro grande encontro ocorreu em 1991; em 1995, consolidou-se a denominação Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. Em 1997, Lago do Junco aprovou a lei municipal pioneira conhecida como Babaçu Livre.

O mecanismo é importante: a pauta ligava trabalho, renda, acesso aos babaçuais, uso comum de recursos, território e protagonismo feminino. Não era apenas uma reivindicação comercial.

Detalhes legislativos acrescentados depois de 2000 não pertencem ao corte desta unidade e não devem ser retroprojetados para a lei pioneira de 1997.

O Maranhão chega a 2000 majoritariamente urbano

O Censo Demográfico de 2000 registrou 5.642.960 habitantes no Maranhão, dos quais 3.357.898 em situação urbana — 59,51%. A maioria urbana, porém, não significou fim do peso do campo nem universalização de moradia, saneamento, emprego e serviços.

A urbanização resultou de crescimento natural, migrações, concentração de oportunidades, expansão rodoviária, grandes projetos e conflitos no campo. Por isso, a leitura correta é relacional: mudanças econômicas e fundiárias ajudaram a reorganizar o território e a população.

5. Cronologia integrada de alto rendimento

MarcoPolíticaEconomia/territórioSociedade
1951crise eleitoral e Greve de 1951dificuldades urbanas e de abastecimento compõem o contextomobilização multiclassista em São Luís
1959política regional ganha novo instrumentocriação da SUDENE inclui o Maranhãointegração passa a orientar políticas de desenvolvimento
1965–1966derrota eleitoral do vitorinismo; início do governo Sarneyagenda de modernização e integraçãoruptura política não elimina desigualdades
1969–1971Estado reorganiza política de terrasLei nº 2.979/1969 e colonização; pecuarizaçãoaumento de conflitos por posse, acesso e território
década de 1970governadores indiretos; ARENA/MDBexpansão rodoviária e portuáriaurbanização e migrações aceleram
1980–1986abertura política avançaPrograma Grande Carajás, Alumar, EFC e Ponta da Madeiragrandes projetos geram emprego e circulação, mas também pressão territorial
1982volta da eleição direta para governador—participação eleitoral se amplia
1988–1989nova ordem constitucional; Constituição estadual—direitos sociais e territoriais ganham novo fundamento jurídico
1991–1997organizações sociais ampliam interlocução públicaeconomia do babaçu permanece territorialmente relevantearticulação das quebradeiras e Babaçu Livre
1994–1998Roseana vence em 1994 e é reeleita em 1998corredor exportador e agricultura mecanizada se consolidamcrescimento urbano segue desigual
1997–2000reformas e privatizaçõesprivatização da Companhia Vale do Rio Doce; controle privado da companhia elétrica estadualMaranhão chega a 2000 com maioria urbana

A tabela organiza simultaneidades. Ela não transforma todo fato da mesma linha em causa direta dos demais.

6. Pegadinhas que mais confundem

1951 não encerra o vitorinismo

A Greve de 1951 foi ruptura na participação social e forte desgaste político. A quebra eleitoral decisiva da hegemonia vitorinista é associada a 1965.

1965 não é 1966

Sarney venceu em 1965 e tomou posse em 1966.

Bipartidarismo não significa ausência de facções

ARENA e MDB concentravam situação e oposição legal, mas grupos estaduais continuavam competindo dentro das siglas.

Programa Grande Carajás não é uma mina maranhense

O programa integrou uma área mais ampla. A extração mineral central ocorria no Pará; no Maranhão, a EFC e os terminais de São Luís formavam o corredor de transporte e exportação.

Itaqui, Ponta da Madeira e Alumar não são sinônimos

São instalações distintas. A proximidade geográfica não autoriza tratá-las como um único porto.

Modernização não é sinônimo de inclusão

Rodovias, porto, ferrovia, indústria e agricultura empresarial ampliaram capacidade produtiva, mas conviveram com concentração fundiária, conflitos, periferização e diferenças de acesso a serviços.

Direito reconhecido não é direito automaticamente efetivado

A Constituição de 1988 mudou o marco jurídico; execução de políticas, demarcação, titulação e oferta de serviços dependem de processos posteriores.

Urbanização não elimina o campo

O Maranhão tornou-se majoritariamente urbano até 2000, mas agricultura, extrativismo, territórios tradicionais e conflitos rurais continuaram estruturando a economia e a sociedade.

Fechamento: cinco âncoras para reconstruir o século

Se precisar reconstruir o tema rapidamente, use cinco âncoras:

  1. 1951 — contestação social ampla, mas continuidade institucional;
  2. 1965 — ruptura eleitoral da hegemonia vitorinista;
  3. 1969–1971 — política fundiária e intensificação de conflitos territoriais;
  4. 1980–1986 — grandes projetos e corredor exportador;
  5. 1988–2000 — nova ordem de direitos, reorganização política, movimentos territoriais e maioria urbana.

A resposta de prova melhora quando você liga as âncoras por mecanismos: poder → políticas de integração e terra → transformação produtiva e logística → deslocamentos e conflitos → novas organizações e novas disputas políticas.

Referências

Referências

Edital e corte

Política e Greve de 1951

Economia e infraestrutura

Sociedade, urbanização e movimentos

  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Direitos sociais, direitos indígenas e art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Acesso em: 14 set. 2026.
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2000. População total, urbana e rural do Maranhão. Acesso em: 14 set. 2026.
  • MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO DE BASE. História. Fundação, educação de base e atuação comunitária. Acesso em: 14 set. 2026.
  • NERIS, Wheriston Silva. Igreja e missão: religiosos e ação política no Brasil. Tese de doutorado, Universidade Federal de Sergipe, 2014. Organização camponesa e mediações no Maranhão. Acesso em: 14 set. 2026.
  • ASSOCIAÇÃO EM ÁREAS DE ASSENTAMENTO NO ESTADO DO MARANHÃO. Sobre a associação. Fundação em 1989 e atuação no Médio Mearim. Acesso em: 14 set. 2026.
  • MOVIMENTO INTERESTADUAL DAS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU. Sobre nós. Encontros de 1991 e 1995 e formação do movimento. Acesso em: 14 set. 2026.
  • MOVIMENTO INTERESTADUAL DAS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU. Babaçu Livre para todas: o legado da lei pioneira de Lago do Junco. Lei municipal nº 05/1997; detalhes posteriores a 2000 não foram incorporados ao corte desta unidade. Acesso em: 14 set. 2026.
  • SANTOS, Frednan Bezerra dos; TAVARES, João Claudino. Questão agrária e violência no Maranhão. Universidade Federal do Maranhão. Conflitos fundiários e violência. Acesso em: 14 set. 2026.

Proveniência interna do reaproveitamento parcial

A unidade é local porque o item 14 exige integração de quatro recortes que existem separadamente na biblioteca. Nenhum canônico compartilhado foi editado.

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