Cultura maranhense

Manifestações populares, patrimônio, religiosidades, literatura, música, culinária e artesanato do Maranhão.

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Cultura maranhense

1. O mesmo Maranhão aparece em linguagens culturais diferentes

Imagine três descrições curtas. Na primeira, mulheres dançam em roda ao som de tambores e uma dançarina convida outra para o centro com um gesto corporal. Na segunda, uma casa religiosa cultua diferentes entidades espirituais. Na terceira, grandes aparelhagens sonoras comandam uma pista em que se dança reggae em pares. As três cenas são maranhenses, mas não pertencem à mesma manifestação nem têm a mesma natureza.

Esse contraste organiza o assunto. Para compreender uma referência cultural, pergunte em sequência:

  1. que tipo de prática é essa — celebração, dança, religião, música, literatura, patrimônio material;
  2. o que seus participantes fazem — instrumentos, personagens, ritos, modos de dançar, produzir ou transmitir;
  3. a que lugares e comunidades ela se associa — sem transformar associação em exclusividade;
  4. que reconhecimento recebeu — tombamento, registro, título legal ou inscrição internacional não são sinônimos.

A cultura maranhense é pluriétnica e viva. Povos indígenas, populações africanas e afrodescendentes e grupos europeus participaram de sua formação em processos de conflito, escravização, resistência, negociação e recriação. Isso impede duas simplificações frequentes: falar em uma cultura indígena ou africana homogênea e imaginar a tradição como repetição imóvel do passado. Uma manifestação pode mudar roupas, repertórios e formas de apresentação e continuar reconhecível porque permanecem vínculos comunitários, sentidos, saberes e modos de transmissão.

2. Bumba Meu Boi: primeiro entenda o ciclo

O Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão reúne festa, música, dança, teatro popular, religiosidade, artesanato e trabalho comunitário. O boi não é apenas um personagem de palco: ele organiza um ciclo anual de preparação, devoção, apresentação e encerramento.

2.1 Do ensaio à morte do boi

Quatro momentos ajudam a enxergar esse ciclo:

  1. ensaios e preparativos — o grupo organiza repertório, roupas e adereços, instrumentos e brincantes;
  2. batismo do boi — ritual festivo-religioso em que a bênção funciona, para os brincantes, como permissão e proteção para a temporada;
  3. apresentações ou brincadas — concentram-se sobretudo no período junino;
  4. morte do boi — ritual que encerra a temporada e renova simbolicamente o compromisso com o ciclo seguinte.

Não há calendário idêntico para todos os grupos. Documentação do Iphan registra que os rituais de morte podem ocorrer de julho a dezembro, conforme o calendário de cada grupo. Portanto, “morte do boi” não significa uma data fixa logo após São João.

Uma versão muito difundida do auto apresenta Mãe Catirina, que deseja comer a língua do boi, e Pai Francisco ou Chico, que mata o animal para atender ao desejo. A crise leva à procura de uma cura ou ressurreição do boi. Esse enredo é uma referência importante, mas os grupos podem suprimir, alterar ou recriar partes da encenação.

Algumas funções e personagens ajudam a ler a apresentação:

  • miolo é o brincante que entra na armação e dá movimento ao boi;
  • amo ou cantador conduz as toadas, os cantos do boi, e momentos da brincadeira;
  • Pai Francisco, Mãe Catirina e vaqueiros integram versões do auto;
  • pajé, curandeiro ou doutor podem aparecer na tentativa de salvar o boi;
  • personagens indígenas pertencem ao universo dramatizado do folguedo e não devem ser tratados como retrato etnográfico de povos indígenas reais;
  • Cazumbá é personagem especialmente associado aos bois da Baixada.

2.2 Sotaque é modo de brincar

No Bumba Meu Boi, sotaque não significa pronúncia. É uma forma de organizar diferenças de musicalidade, instrumentos, coreografia, vestuário e adereços.

SotaqueAssociação territorial recorrenteMarca que ajuda a reconhecê-lo
Matraca ou da IlhaIlha de São Luísmatracas, pandeirões e tambor-onça
ZabumbaGuimarães e litoral ocidentalzabumbas e forte percussão
Baixada ou PindaréBaixada Maranhenseandamento mais cadenciado e presença marcante do Cazumbá
Costa de MãoCururupu e litoral ocidentalpandeiros tocados com as costas das mãos
Orquestraregião do Munim e outras áreasinstrumentos de sopro e corda combinados à percussão

Os cinco sotaques formam uma classificação didática consolidada. Eles não esgotam as variações locais nem impedem combinações e mudanças históricas.

3. Três tradições que não podem ser tratadas como sinônimas

Tambor de Crioula, Tambor de Mina e Terecô podem aparecer em circuitos culturais próximos e dialogar com religiosidades afro-maranhenses. O nome “tambor”, porém, não lhes dá a mesma natureza.

3.1 Tambor de Crioula: dança, canto e punga

O Tambor de Crioula do Maranhão é uma forma de expressão afro-brasileira. A roda reúne coreiras, canto em que solista e coro se alternam e um conjunto tradicional de três tambores — grande, meião e crivador. A punga marca a passagem da dança de uma coreira para outra.

A manifestação pode ocorrer em festas, praças, terreiros e pagamentos de promessa. A devoção a São Benedito é frequente, mas não autoriza concluir que toda roda tenha motivo religioso idêntico. Também não existe um único calendário ou município obrigatório.

3.2 Tambor de Mina: uma religião

O Tambor de Mina é uma religião afro-brasileira fortemente associada ao Maranhão, sobretudo a São Luís. Conforme a tradição de cada casa, aparecem voduns, orixás, encantados e caboclos, além de canto, tambores, dança e transe.

A Casa das Minas é referência da tradição jeje, especialmente ligada ao culto de voduns. A Casa de Nagô é outra casa matriz, com trajetória própria; não é uma filial da Casa das Minas. Proteger patrimonialmente uma edificação religiosa também não significa registrar federalmente toda a religião.

3.3 Terecô: Codó e a encantaria

O Terecô é especialmente associado a Codó e à região dos Cocais. Sua história dialoga com Tambor de Mina, cura, pajelança, umbanda e encantaria. Relação histórica, porém, não significa identidade: Terecô não é simples nome alternativo do Tambor de Mina.

A distinção central pode ser resumida assim: Crioula é forma de expressão dançada; Mina é religião; Terecô é tradição religiosa própria, fortemente ligada a Codó e à encantaria.

4. Divino, Cacuriá e danças de devoção

A Festa do Divino Espírito Santo veio de uma tradição católica portuguesa, mas ganhou recriações maranhenses próprias. Nela aparecem uma corte simbólica — imperador, imperatriz, mordomos e outros cargos —, bandeira e pomba do Divino, mastro, cortejos, visitas, promessas, refeições comunitárias e as caixeiras, mulheres que executam repertórios rituais nas caixas.

Alcântara é uma referência marcante da festa, não seu único território. Celebrações do Divino também existem em outras comunidades rurais, quilombolas, urbanas e de terreiro.

O Cacuriá ajuda a perceber como uma tradição pode gerar outra prática sem se confundir com ela. A dança se consolidou autonomamente a partir de momentos recreativos historicamente associados às festas do Divino. Usa caixas, canto de pergunta e resposta, dança em pares ou roda, humor e letras de duplo sentido. Dona Teté teve papel decisivo em sua popularização; isso não transforma uma prática coletiva em invenção individual.

Duas outras referências merecem uma ponte mínima:

  • a Dança do Lelê, também chamada em localidades de Péla-Porco, é dança de salão em pares, com formas locais variadas e acompanhamento que pode reunir violão, cavaquinho, pandeiro, castanholas, flauta ou pífano e rabeca;
  • a Dança, Baile ou Jornada de São Gonçalo tem caráter devocional e pode ser realizada em cumprimento de promessa, com canto e dança organizados diante do santo.

Coco, bambaê de caixa, reisado, quadrilhas, capoeira, cordel e cantoria ampliam esse repertório. O ponto comum não é uma forma única de apresentação, e sim a existência de tradições transmitidas e recriadas por diferentes comunidades.

5. Carnaval e reggae: duas culturas urbanas distintas

5.1 Carnaval de São Luís

O carnaval maranhense reúne escolas de samba, blocos tradicionais, blocos afro, tribos de índio, bandas e outros grupos. O fofão, personagem mascarado de roupa volumosa e colorida, é um emblema do carnaval de São Luís.

A aparência de personagens mascarados não autoriza misturá-los: fofão pertence ao universo carnavalesco; Cazumbá se associa especialmente ao Bumba Meu Boi da Baixada.

5.2 O reggae recriado em São Luís

O reggae se difundiu fortemente em São Luís a partir das décadas de 1970 e 1980 e adquiriu um circuito local próprio. Nele se destacam:

  • a dança em pares, popularmente chamada de agarradinho;
  • as radiolas, grandes sistemas de som usados em festas e clubes;
  • selecionadores de música, colecionadores e circuitos de clubes;
  • as chamadas “pedras” ou “tijoladas”, nomes locais para músicas de grande impacto nos salões;
  • bandas e produção musical maranhense.

A Lei nº 14.668/2023 deu a São Luís o título de Capital Nacional do Reggae. É um título legal brasileiro. Ele não equivale a registro pelo Iphan nem a inscrição pela UNESCO. A inscrição feita pela UNESCO em 2018 refere-se ao reggae da Jamaica, não a uma candidatura específica do reggae de São Luís.

6. Patrimônio: primeiro separe o instrumento, depois memorize a data

Datas patrimoniais ficam mais fáceis quando se entende o mecanismo:

  • tombamento protege bens materiais, como edificações e conjuntos urbanos;
  • registro reconhece bens culturais imateriais e orienta ações de salvaguarda;
  • inscrição pela UNESCO é um reconhecimento internacional próprio;
  • título legal, como Capital Nacional do Reggae, decorre de lei e não se transforma automaticamente em tombamento ou registro.

Salvaguarda não significa congelar a manifestação numa versão antiga. O objetivo é favorecer continuidade e transmissão com participação de seus detentores.

6.1 Bumba Meu Boi e Tambor de Crioula

O Bumba Meu Boi recebeu três marcos que devem permanecer separados:

  • 30/08/2011: registro pelo Iphan no Livro das Celebrações;
  • 2019: inscrição pela UNESCO na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade;
  • 2025: revalidação do registro nacional; o Conselho Consultivo do Iphan aprovou o processo em março, e o Termo de Averbação foi formalizado em setembro.

Revalidar significa confirmar a continuidade do reconhecimento federal após nova avaliação. Não é um primeiro registro e não substitui a inscrição internacional.

O Tambor de Crioula foi registrado pelo Iphan em 2007, no Livro das Formas de Expressão, e teve o registro revalidado em 31/08/2021.

6.2 São Luís e Alcântara

No patrimônio material, a comparação essencial é:

LugarProteção e reconhecimento
Centro Histórico de São Luístombamento federal em 1974; inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1997
Alcântaraconjunto arquitetônico e urbanístico tombado pelo Iphan em 1948; não é sítio autônomo da Lista do Patrimônio Mundial

O Centro Histórico de São Luís preserva traçado urbano, sobrados, solares, casas e fachadas azulejadas ligados à arquitetura luso-brasileira. A inscrição de 1997 emprega os critérios (iii), (iv) e (v) da UNESCO, associados ao testemunho da civilização colonial portuguesa, ao exemplo de cidade colonial adaptada às condições equatoriais e à preservação de seu tecido urbano. A fundação francesa de São Luís, portanto, não torna francesa a arquitetura que fundamenta esse reconhecimento.

Alcântara conserva igrejas, sobrados, ruínas e outros vestígios de uma sociedade agroexportadora. Entender esse patrimônio exige enxergar também trabalho escravizado, população negra, comunidades quilombolas e conflitos territoriais, em vez de reduzir a cidade à memória de famílias de elite.

7. Literatura e artes: obras como formas de interpretar o Maranhão

No século XIX, São Luís ganhou a imagem de “Atenas Brasileira” pela projeção de seu circuito letrado. O rótulo descreve esse prestígio intelectual; não resume toda a cultura maranhense nem deve apagar tradições orais, negras, indígenas e populares.

Em vez de decorar apenas autor e título, associe cada nome à contribuição que o torna reconhecível:

AutorChave de compreensão
Gonçalves DiasRomantismo e indianismo; “Canção do Exílio”, “I-Juca-Pirama” e Os Timbiras. A representação indianista é literatura, não substituto da história dos povos indígenas.
Maria Firmina dos ReisÚrsula (1859) articula autoria feminina negra e perspectiva antiescravista.
SousândradeO Guesa combina grande ambição poética e forte experimentação de linguagem; sua obra foi reavaliada no século XX por leitores ligados às vanguardas e ao concretismo.
Aluísio Azevedoreferência do Naturalismo; O Mulato e O Cortiço.
Artur Azevedoteatro e comédia de costumes; A Capital Federal e O Mambembe.
Josué MontelloOs Tambores de São Luís articula memória urbana e a experiência negra e escravista no Maranhão por meio da ficção.
Ferreira Gullarpoesia e crítica; participação no neoconcretismo e projeção nacional, com obras como Poema Sujo.

Na música e nas artes visuais, algumas associações ajudam a ampliar o mapa cultural:

  • João do Vale compôs “Carcará” e projetou experiências populares e sertanejas na música brasileira;
  • Alcione é referência do samba;
  • Papete aproximou sua produção de ritmos e repertórios populares maranhenses;
  • Tribo de Jah é referência do reggae;
  • Floriano Teixeira destacou-se na pintura e na ilustração;
  • Dileusa Dinis Rodrigues, Dila, artista plástica autodidata nascida em Humberto de Campos, abordou o cotidiano e a vida nordestina, incluindo festas e paisagens urbanas e rurais — associação já explorada pelo Cebraspe em prova aplicada em São Luís.

Esses nomes formam um conjunto representativo, não uma lista completa.

8. Culinária e artesanato: cultura também se transmite por técnicas

Comida e artesanato não são apêndices folclóricos: ambos carregam ingredientes, técnicas, circulação de saberes e trabalho.

ReferênciaO que reconhecer
arroz de cuxápreparação associada a vinagreira, camarão seco e gergelim, com variações de receita
juçaradenominação local ligada ao fruto e à preparação de açaí consumida com diferentes acompanhamentos
tiquiradestilado de mandioca, não de cana-de-açúcar
doce de espécieespecialidade fortemente associada a Alcântara
farinha de mandiocaproduto ligado a saberes agrícolas e ao trabalho em casas de farinha

No artesanato aparecem fibras de buriti e babaçu, trançados, cestaria, cerâmica, rendas, bordados, madeira, biojoias, máscaras, vestuário e adereços do boi. O que os conecta é a transmissão de saber técnico, trabalho e repertório cultural, muitas vezes também gerando renda para famílias e comunidades.

9. Fechamento: cinco distinções que organizam o capítulo

Se a descrição parecer familiar, identifique primeiro a natureza da prática e só depois procure data ou território. Isso resolve os contrastes mais recorrentes:

  • sotaque do boi é modo de brincar; não pronúncia;
  • Tambor de Crioula, Tambor de Mina e Terecô dialogam, mas não são três nomes da mesma prática;
  • fofão pertence ao carnaval; Cazumbá se associa especialmente ao Bumba Meu Boi da Baixada;
  • tombamento, registro, inscrição pela UNESCO e título legal são reconhecimentos de naturezas diferentes;
  • território associado não significa exclusividade: Alcântara é referência do Divino, e Codó é referência do Terecô, sem transformar essas relações em fronteiras rígidas.
Referências
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