Regência verbal e nominal
1. Por que analisar o processo, mas precisar do processo?
Imagine uma equipe preparando uma decisão. Ela analisa o processo, precisa do processo e é favorável ao recurso. O assunto continua sendo o trabalho da equipe, mas a ligação entre as palavras muda: analisar recebe o complemento diretamente; precisar pede de; favorável pede a. Os exemplos deste capítulo são hipotéticos.
Essa relação de dependência é a regência. A palavra que determina a construção é o termo regente; o termo que dela depende é o regido. Há regência verbal quando o regente é um verbo e nominal quando é um substantivo, adjetivo ou advérbio.
As preposições, como a, de, em, com e por, ligam termos. Podem juntar-se a outras palavras: do contém de + o; ao, a + o; na, em + a. Já em “analisou o processo”, o é apenas artigo, palavra que acompanha o substantivo. Portanto, haver uma palavra antes do complemento não significa haver preposição.
A regência não é concordância: “a equipe precisa” e “as equipes precisam” mudam a forma do verbo, mas conservam precisar de.
Complemento ou circunstância?
Em “a equipe precisa de apoio”, o segmento informa aquilo de que se necessita: completa o sentido de precisar. Em “a equipe trabalhou no sábado, com cuidado”, os segmentos acrescentam tempo e modo; são adjuntos adverbiais, termos que apresentam circunstâncias.
Por isso, nem toda preposição é exigência de um verbo. Quando serve à ligação selecionada pelo regente, é chamada de regencial ou relacional; quando introduz um sentido como tempo, instrumento ou companhia, pode ser chamada de nocional. Em “trabalhou com uma ferramenta”, com indica instrumento; em “concordou com a proposta”, integra a construção concordar com. Considere sempre o trecho completo, não a preposição isolada.
Retirar um termo pode ajudar, mas não decide sozinho sua função. “A equipe já analisou” pode deixar o objeto subentendido pelo contexto. Um complemento omitido não se transforma, por isso, em circunstância.
Objeto direto, indireto e transitividade
Uma oração organiza-se em torno de um verbo. Em “a equipe analisou o processo”, a equipe é o sujeito, termo sobre o qual se declara algo; o processo é complemento de analisou.
- Objeto direto (OD): liga-se normalmente ao verbo sem preposição exigida, como o processo em “analisou o processo”. O verbo, nesse uso, é transitivo direto.
- Objeto indireto (OI): completa o verbo por uma relação preposicionada, como ao regulamento em “obedeceu ao regulamento”. O verbo, nesse uso, é transitivo indireto.
- Um verbo pode receber os dois objetos: “entregou o processo ao servidor”. É transitivo direto e indireto. Em “a criança dormiu”, dormir não exige objeto: tem emprego intransitivo.
Transitividade é essa maneira de o verbo se construir com seus complementos no emprego concreto. Não é uma etiqueta imutável: aspirar o ar e aspirar ao cargo têm sentidos e construções diferentes.
Há ainda objeto direto preposicionado: a preposição aparece por uma condição da construção, não porque o verbo tenha passado a exigir objeto indireto. Em “conhece a si mesmo”, conhecer continua direto, como em “conhece o colega”. Não classifique o objeto apenas pela presença visível de a.
2. A função do complemento explica o pronome
Para evitar a repetição de um nome, podemos substituí-lo por um pronome. Na retomada de terceira pessoa, o, a, os, as são formas típicas de objeto direto; lhe, lhes substituem certos objetos indiretos, especialmente com a. São pronomes oblíquos átonos: não têm acento próprio na fala e se apoiam no verbo.
“Analisou o processo” torna-se “analisou-o”; “obedeceu ao servidor”, “obedeceu-lhe”. A preposição não aparece separadamente em lhe, mas a relação indireta permanece. Já ele/ela podem aparecer como pronomes tônicos, com autonomia de pronúncia e precedidos de preposição: a ele, dela, com ela.
Pessoa não é sinônimo de objeto indireto. Em “informou o servidor”, a pessoa é objeto direto: “informou-o”. Também não se pode substituir qualquer termo preposicionado por lhe: “gosta do processo” passa a “gosta dele”, não a “gosta-lhe”.
Informar e avisar: duas construções, sem mistura
A mesma comunicação pode organizar seus participantes de duas maneiras:
| Construção | Complemento direto | Complemento preposicionado | Retomada da pessoa |
|---|---|---|---|
| Informei o resultado ao servidor. | o resultado | ao servidor | Informei-lhe o resultado. |
| Informei o servidor do resultado. | o servidor | do resultado | Informei-o do resultado. |
Na primeira, informa-se algo a alguém; na segunda, alguém de algo. “Informei-lhe do resultado” mistura os dois esquemas: mantém a pessoa como indireta e introduz também o conteúdo por de. Para a construção tradicional estudada, escolha uma linha inteira da tabela, não metade de cada uma.
Avisar admite os mesmos esquemas: “avisei o resultado ao servidor” / “avisei o servidor do resultado”. Com cientificar, use alguém de algo: “cientifiquei o servidor do resultado” → “cientifiquei-o do resultado”.
Pagar, perdoar e agradecer
O padrão tradicional distingue a coisa diretamente e a pessoa com a: “paguei a dívida ao credor”, “perdoei a ofensa ao colega”, “agradeci o auxílio ao servidor”. Daí “paguei-lhe a dívida” e “perdoei-lhe a ofensa”: lhe retoma a pessoa, não a coisa.
Um dos complementos pode não ser expresso: “paguei a dívida”; “agradeci ao servidor”. Agradecer também admite por para o motivo: “agradeci ao servidor pelo auxílio”. Reconhecer o esquema pedido pelo enunciado não autoriza afirmar que nenhuma outra construção tenha registro.
A escolha entre o e lhe depende da regência. A posição antes, depois ou no interior de uma forma verbal é desenvolvida em Colocação pronominal.
3. Quando mudar o sentido muda a regência
Assistir, aspirar e visar
Assistir permite distinguir quatro situações. Quem presencia uma sessão assiste à sessão, na regência tradicional. Quem presta assistência pode assistir o paciente ou assistir ao paciente. Quando significa caber como direito, constrói-se com a: “esse direito assiste ao interessado”. No sentido pouco usual de residir, aparece com em: “assistia em São Luís”.
Não basta encontrar “assistir a alguém” para decidir o sentido: o contexto pode indicar assistência ou um direito que cabe à pessoa. Também muda a retomada: para o espetáculo presenciado, a tradição emprega assistir a ele, não assistir-lhe; em “esse direito lhe assiste”, lhe é regular.
Aspirar contrasta dois sentidos: “aspirou a fumaça” é inalar, com objeto direto e retomada “aspirou-a”; “aspira ao cargo” é desejar, com a e retomada aspira a ele, não aspira-lhe, na construção tradicional.
Visar é direto ao significar mirar ou pôr visto: visar o alvo, visar o documento. Para ter por objetivo, a construção tradicional é visar ao resultado. O uso direto nesse sentido também é documentado; diante de infinitivo, “visa reduzir custos” é inclusive a orientação do Manual de Comunicação do Senado. Não acrescente mecanicamente a a todo emprego de visar.
Norma-padrão é o modelo formal de referência; não é a descrição de todos os usos. “Assistir o filme” é corrente no Brasil; “assistir ao filme” corresponde à regência tradicional. Siga o padrão fixado pelo comando, sem converter preferências editoriais em proibições universais quando há alternativas documentadas.
Agradar e querer
Em “a mãe agradou a criança”, agradar pode significar acariciar, com objeto direto. Em “a decisão agradou à criança”, significa satisfazer, com complemento introduzido por a. Neste segundo exemplo, a decisão é o sujeito; à criança indica quem ficou satisfeito. O fato de o termo indicar uma pessoa não determina sua função.
Com querer, desejar algo se constrói diretamente: “quero uma resposta”. Estimar alguém admite querer a alguém: “quero aos meus amigos”, “quero-lhes bem”. Trocar a construção pode alterar o sentido, mesmo sem produzir uma frase gramaticalmente incorreta.
Implicar, proceder e responder
Implicar custos significa acarretá-los: na construção tradicional, o efeito é objeto direto. “Implicar em custos” tem uso documentado, mas não corresponde a essa forma conservadora. Já “implicar com o colega” significa antipatizar ou provocar; “implicar o colega no caso”, envolvê-lo. O em de no caso é próprio de outro esquema, não justifica inserir em em qualquer frase com esse verbo.
Com proceder, compare: “a alegação procede” = tem fundamento, sem objeto; “o documento procede de outra unidade” = tem essa origem; “a comissão procedeu à análise” = realizou a análise. Na última, a preposição é a, não de.
Responder pode indicar o destinatário ou a pergunta, o conteúdo da resposta ou a responsabilidade: “respondeu ao examinador”, “respondeu à pergunta”, “respondeu que concordava”, “respondeu pelos próprios atos”. A oração que concordava apresenta aquilo que foi respondido; pelos próprios atos não significa “ao examinador”.
4. Outras construções que não cabem numa fórmula única
Obedecer, preferir, consistir e acarretar
Obedecer e desobedecer selecionam a na regência tradicional: “obedeceu às normas”, “desobedeceu ao superior”. Ambos admitem lhe/lhes: “obedeceu-lhes”. O emprego direto ocorre no português brasileiro, mas não é o modelo tradicional.
Preferir já exprime dar prioridade a uma opção. Quando as duas são explicitadas, constrói-se preferir uma coisa a outra: “prefiro a análise cuidadosa à decisão precipitada”. A primeira é a escolhida; a segunda fica em segundo plano. Evite nessa construção prefiro mais, prefiro antes e a troca de a por do que. Pode-se expressar só a preferência: “prefiro a análise cuidadosa”. A ordem não muda a relação: “à decisão precipitada, prefiro a análise cuidadosa”.
Consistir em apresenta aquilo em que algo se baseia ou de que se constitui: “o trabalho consiste em revisar dados”. Acarretar, no sentido de causar, recebe diretamente o efeito: “a omissão acarretou prejuízos”, sem em na construção tradicional.
Lembrar e esquecer: o pronome faz parte do esquema
Compare “esqueci o prazo” e “esqueci-me do prazo”. O fato comunicado é o mesmo, mas o segundo esquema inclui um pronome que acompanha a pessoa do verbo: eu me, ele se, nós nos. É a construção pronominal.
| Sem pronome, complemento direto | Com pronome e preposição de |
|---|---|
| Lembrei o compromisso. | Lembrei-me do compromisso. |
| Esqueci o prazo. | Esqueci-me do prazo. |
Em “esqueci-o”, o substitui o prazo; em “esqueci-me do prazo”, me integra a construção do verbo e não substitui o prazo. “Esqueci do prazo”, sem me, é frequente no uso brasileiro; as duas colunas mostram os esquemas tradicionais. A mudança de uma coluna para a outra exige ajustar pronome e preposição juntos.
Chamar e custar: quem recebe a qualidade ou sente a dificuldade?
Chamar o servidor pode ser convocá-lo; chamar pelo médico, pedir por sua presença. Ao atribuir uma qualidade, “chamou o servidor de imprudente”, o termo imprudente não identifica outra pessoa: caracteriza o próprio servidor. É predicativo do objeto, a qualidade atribuída ao objeto pelo verbo.
Nesse sentido, há quatro construções tradicionais: chamou-o imprudente, chamou-o de imprudente, chamou-lhe imprudente, chamou-lhe de imprudente. A escolha do objeto e a presença de de diante da qualidade variam. Não aplique essa flexibilidade ao sentido simples de convocar.
Custar pode indicar preço: “o material custou cem reais”. Para dificuldade, observe “custou-me aceitar a decisão”: o fato difícil é aceitar a decisão, que funciona como sujeito; me indica a quem isso custou. Aceitar está no infinitivo, forma que nomeia a ação sem, nesse uso, marcar seu tempo.
Na construção tradicional de dificuldade, use “custou-me aceitar”, sem transformar a pessoa em sujeito. Custar também significa demorar, e os dicionários registram “custei a chegar”. Não proíba toda sequência “eu custei a” sem considerar o sentido e o padrão pedido.
Prevenir e as variantes admitidas
Prevenir riscos é evitá-los; prevenir o servidor do risco é alertá-lo. A pessoa alertada pode ser retomada por o: “preveni-o do risco”. Também se registra “preveni-o contra a fraude”. O evento evitado e a pessoa alertada ocupam posições diferentes na construção.
Há verbos em que duas regências são documentadas sem que a preposição imponha uma mudança de sentido:
| Verbo e sentido | Construções documentadas |
|---|---|
| atender, receber ou dar atendimento | atender o usuário / ao usuário |
| atender, acolher ou satisfazer | atender o pedido / ao pedido |
| usufruir, desfrutar | usufruir os benefícios / dos benefícios |
| presidir, dirigir | presidir a sessão / à sessão |
| deparar, encontrar inesperadamente | deparar com um problema / deparar-se com um problema |
O quadro não torna todas as preposições equivalentes entre si, nem se estende automaticamente a todos os sentidos desses verbos. Ele impede a conclusão de que apenas uma das formas indicadas poderia existir.
5. Nomes também selecionam preposições
Não é necessário haver um verbo antes do complemento. “A equipe é favorável ao recurso” contém o verbo ser, mas quem determina a é favorável: favorável a quê? Isso é regência nominal.
O regente pode dar nome a algo (substantivo, como necessidade), atribuir uma característica (adjetivo, como favorável) ou modificar uma ação ou qualidade (advérbio, como independentemente). Compare necessidade de apoio, favorável ao recurso, agiu independentemente de autorização.
Aprenda a palavra junto de sua relação. Uma família pode ajudar: obedecer a → obediência a → obediente a. São palavras cognatas, isto é, de origem comum. A conservação da preposição é útil para memorizar, mas não é uma regra sem exceções.
Substantivos
| Regente | Preposição e aplicação |
|---|---|
| acesso, adesão, alusão, referência | a: acesso aos autos; adesão ao programa; alusão ao parecer; referência ao processo |
| amor, aversão | a, por: amor à profissão ou pela profissão; aversão ao risco ou por fraudes |
| capacidade | de, para: capacidade de análise; capacidade para analisar |
| compatibilidade, conformidade | com: compatibilidade com o cargo; conformidade com a norma |
| necessidade | de: necessidade de revisão |
| respeito | a, por, para com: respeito às regras; respeito pelos colegas; respeito para com os colegas |
Adjetivos
| Regente | Regência frequente |
|---|---|
| acessível, avesso, equivalente | a: acessível aos usuários; avesso a mudanças; equivalente ao original |
| favorável, fiel, idêntico | a: favorável ao recurso; fiel aos fatos; idêntico ao modelo |
| inerente, preferível, sensível | a: inerente à função; preferível à alternativa; sensível às mudanças |
| adequado, apto | a, para: adequado ao cargo ou para o cargo; apto a exercer ou para exercer |
| alheio | a, de: alheio ao problema; alheio de disputas |
| propenso | a, para: propenso a erros; propenso para a conciliação |
| compatível | com: compatível com a função |
| digno, passível, oriundo | de: digno de confiança; passível de revisão; oriundo de outra unidade |
| hábil | em: hábil em negociação |
| responsável | por: responsável pelo setor |
| grato | a alguém por algo: grato ao servidor pelo auxílio |
As preposições de grato não são simples alternativas: uma introduz o destinatário da gratidão; a outra, o motivo. Isso também mostra por que decorar apenas “grato a/por” pode esconder a relação que a frase exige.
Advérbios e expressões
Use longe de, perto de, independentemente de; relativamente a, paralelamente a, contrariamente a, anteriormente a e posteriormente a. Junto admite a/de, conforme o sentido: junto à porta, junto da porta.
A relação persiste em enunciados maiores: “agiu independentemente da autorização”; “decidiu contrariamente ao parecer”. A presença de agiu ou decidiu não transfere a esses verbos a regência de independentemente ou contrariamente.
6. A preposição diante de uma oração ou de um relativo
Quando o complemento é um fato inteiro
“Tenho certeza da aprovação” pode tornar-se “tenho certeza de que o pedido será aprovado”. O complemento passou a ser uma oração, mas continua ligado ao substantivo certeza por de. Nesse emprego, que é conjunção integrante: introduz uma oração que ocupa a posição de um termo, sem retomar um nome anterior.
Para enxergar a relação, substitua o fato por isso: certeza disso → certeza de que; afirmou isso → afirmou que. O teste precisa manter o regente e o sentido; não se trata de acrescentar de a todo que.
| Relação básica | Com oração como complemento |
|---|---|
| necessitamos disso | Necessitamos de que os dados sejam revistos. |
| favorável a isso | Sou favorável a que se conclua o processo. |
| lembro-me disso | Lembro-me de que a reunião foi adiada. |
| informou o servidor disso | Informou o servidor de que o prazo mudou. |
| afirmou isso | Afirmou que o prazo mudou. |
A supressão indevida da preposição é chamada queísmo, como em tenho certeza que no padrão conservador. A inserção indevida de de é dequeísmo, como em afirmou de que. Há omissões registradas em construções específicas, inclusive “lembro-me que”; isso não torna facultativa toda preposição diante de oração. “Lembro-me de que” conserva explicitamente a regência.
Quando que retoma um nome
Compare agora “analisei o processo” e “este é o processo que analisei”. Nesse segundo enunciado, que retoma processo e ocupa, na oração que analisei, a posição do objeto. É pronome relativo; o nome retomado é seu antecedente.
Para reunir “este é o processo” e “preciso do processo”, o relativo deve conservar de: “este é o processo de que preciso”. A preposição vem antes do relativo, embora o verbo que a seleciona apareça depois dele.
| Reconstrução | Relativo com a relação preservada |
|---|---|
| assisti à sessão | a sessão a que assisti |
| aspiro ao cargo | o cargo a que aspiro |
| gosto do livro | o livro de que gosto |
| confio na norma | a norma em que confio |
| obedeci à servidora | a servidora a quem obedeci |
| falei do servidor | o servidor de quem falei |
O mesmo procedimento conserva relações circunstanciais: “trabalhei com a ferramenta” → “a ferramenta com que trabalhei”. O relativo exige preservar o instrumento expresso por com, mas isso não transforma o instrumento em objeto indireto exigido por trabalhar.
Lugar: onde, aonde e outras preposições
Onde equivale, nos usos de lugar aqui estudados, a em que: “a cidade onde moro”. Aonde contém a + onde: “a cidade aonde vou”, pois vou a essa cidade. O movimento sozinho não decide: “o caminho por onde passei” indica percurso; “a cidade de onde voltei”, origem. Se a construção é ir para, pode-se dizer para onde vou.
Na regência tradicional, use ir a/para, chegar a, voltar a/para para destino e voltar de para origem. A pode sugerir destino pontual; para, permanência ou mudança, mas a oposição não é absoluta. “Chegar na sede” e “ir no tribunal” são correntes no Brasil; o padrão conservador é “chegar à sede” e “ir ao tribunal”. Para localização: “estar na sede”, “morar em São Luís”.
Com antecedentes abstratos, prefira a relação precisa: “a situação em que ocorreu a falha”, não a situação aonde. Bechara documenta onde além do lugar físico; a preferência editorial por em que/no qual/na qual não torna todo onde abstrato universalmente impossível.
7. Regência, voz passiva e crase
O que pode tornar-se sujeito?
“A empresa pagou a dívida” apresenta a empresa como sujeito e a dívida como objeto direto. “A dívida foi paga pela empresa” apresenta como sujeito aquilo que recebeu a ação. Essa segunda organização é a voz passiva, e a dívida é sujeito paciente.
Na transformação regular, é o objeto direto que pode tornar-se sujeito paciente, não qualquer complemento. Já “aspira ao cargo” não produz “o cargo foi aspirado” com o mesmo sentido de desejar. “Assiste à sessão” também não fornece objeto direto na análise tradicional de presenciar. A passiva a sessão foi assistida corresponde ao emprego direto, não a uma transformação automática da construção indireta.
Com se, a diferença explica a concordância. “Vendem-se imóveis” equivale a “imóveis são vendidos”: é passiva sintética, formada com se, e o verbo concorda com o sujeito plural. Em “assiste-se a palestras”, o complemento continua indireto; se não identifica quem assiste. Há sujeito indeterminado, e o verbo fica na terceira pessoa do singular. O mesmo ocorre, na construção tradicional, em “obedece-se às normas”.
Obedecer e desobedecer admitem excepcionalmente a passiva com ser: “as normas foram obedecidas”. Essa particularidade registrada não permite transformar todo OI em sujeito nem autoriza o plural em “obedece-se às normas”. O desenvolvimento das demais concordâncias pertence a Concordância verbal e nominal.
De onde vem o acento grave?
Em “assistir à sessão”, a regência fornece a; sessão vem acompanhada do artigo feminino a. O encontro a + a produz à. A fusão é a crase; o acento grave é sua marca gráfica nesse caso. O mesmo mecanismo ocorre em proceder à análise e favorável à medida.
Já “analisou a sessão” tem somente artigo: analisar não exige a. E “aspira a este cargo” tem preposição, mas não artigo feminino com que fundi-la. Nem palavra feminina nem preposição a bastam isoladamente. Os demais encontros, as proibições e as opções de grafia são desenvolvidos em Crase.
8. Reescrever sem perder a relação
“Assistiu e gostou da sessão” tenta fazer da sessão completar dois verbos de regências diferentes. Refaça cada relação: assistiu à sessão; gostou da sessão. A reescrita fica “assistiu à sessão e gostou dela” ou “a sessão a que assistiu e de que gostou”. Esse ajuste é paralelismo de regência: manter uma construção compatível com cada regente coordenado.
Também separe os complementos em “ama o chefe e lhe obedece”. Com nomes, “favorável ao projeto e contrário à emenda” deixa explícitas as duas relações. Essa união dos termos não apaga as exigências de cada palavra.
Para julgar uma reescrita, reconstrua primeiro a frase simples, com os nomes no lugar dos pronomes. Depois confira sentido, complemento e preposição. Só então examine a consequência pedida — pronome, relativo, passiva ou crase. “Assistiu o paciente” e “assistiu ao julgamento” podem ser frases corretas, mas não comunicam a mesma ação. Correção gramatical e equivalência de sentido são condições diferentes; a questão pode exigir ambas.
Referências
Fontes consultadas em 5 de setembro de 2026. Recorte: regência na norma-padrão brasileira, com distinção entre construção tradicional, preferência editorial e variantes documentadas. O edital delimita o programa; os manuais e verbetes fundamentam as análises linguísticas.
- TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO MARANHÃO. Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026. Conhecimentos gerais, Língua Portuguesa, item 5.6: regência verbal e nominal; interfaces com crase, colocação pronominal e reescrita. Programa comum aos consumidores Analista Administração e Técnico-Administrativa.
- AULETE DIGITAL. Regência. Gramática Básica da Língua Portuguesa. Base para regente e regido, complementação, pronomes, construções de assistir, aspirar, chamar, lembrar, esquecer, obedecer, desobedecer, perdoar e responder. Lexikon Editora Digital.
- GOIÂNIA. Secretaria Municipal de Educação. Língua Portuguesa — Textos pessoais, sujeito e predicado e transitividade verbal. Conexão Escola. Apoio às definições iniciais de sujeito, objetos e transitividade dependente do contexto.
- SENADO FEDERAL. Regência nominal. Manual de Comunicação. Relações preposicionais de nomes, inclusive variantes de alheio, aversão, capacidade e propenso.
- SENADO FEDERAL. Visar. Manual de Comunicação. Preferência editorial por visar a no sentido de ter por objetivo e orientação específica diante de infinitivo.
- BECHARA, Evanildo. Os relativos e as preposições (conclusão). O Dia, 26 fev. 2012; reprodução pela Academia Brasileira de Letras. Reconstrução de orações com relativos e conservação da preposição, inclusive em circunstâncias de percurso.
- BECHARA, Evanildo. Emprego de “onde” ou “em que” (continuação). Academia Brasileira de Letras. Distinção entre restrição editorial e usos documentados de onde com antecedentes não físicos.
- AULETE DIGITAL. Verbetes informar, avisar, cientificar e agradecer. Dicionário Caldas Aulete. Organização dos complementos de conteúdo, pessoa e motivo. Lexikon Editora Digital.
- AULETE DIGITAL. Verbetes visar, implicar, preferir, custar e prevenir. Dicionário Caldas Aulete. Acepções, construções tradicionais e variantes registradas. Lexikon Editora Digital.
- AULETE DIGITAL. Verbetes atender, usufruir, presidir e deparar. Dicionário Caldas Aulete. Suporte ao quadro de regências alternativas documentadas. Lexikon Editora Digital.
- PRADA, Edite. A sintaxe de implicar. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 30 nov. 2005. Análise da construção implicar em com valor de resultado e ressalva quanto à opção conservadora em textos formais.