Capitães-mores do Maranhão: da conquista ao governo
Depois da conquista portuguesa consolidada no início do século XVII, o problema deixou de ser apenas militar: era preciso defender, povoar e administrar o território. É nesse ponto que o cargo de capitão-mor ganha importância.
O título não teve um único significado imutável ao longo de toda a história colonial. Suas atribuições dependiam da época, da jurisdição e das instruções recebidas. No Maranhão, ele aparece ligado tanto à consolidação da conquista quanto, em fases posteriores, à administração da capitania na ausência de autoridade superior.
1. Não trate “capitão-mor” como patente militar moderna
No recorte maranhense do início do século XVII, capitão-mor é melhor entendido como posto colonial de comando e governo, com funções que podiam combinar defesa e administração.
Isso evita duas confusões:
- não é correto transportar automaticamente para o século XVII o sentido de uma patente militar contemporânea;
- não se deve confundir, sem contexto, o capitão-mor da capitania com o capitão-mor de ordenanças de outras estruturas administrativas.
A pergunta útil é sempre: capitão-mor de quê, em qual época e sob qual organização política?
2. Por que o cargo aparece logo após a conquista
A vitória militar contra a presença francesa não resolvia sozinha a ocupação portuguesa. Era necessário converter conquista em governo:
conquista → defesa → povoamento → administração
Uma narrativa administrativa tradicional registra que, depois do desfecho contra os franceses, Alexandre de Moura organizou a nova estrutura e Jerônimo de Albuquerque ficou associado ao governo português da capitania.
O vínculo com PER-U048 é apenas esse ponto de passagem. França Equinocial, fundação de São Luís e Guaxenduba já foram estudadas ali; aqui o foco é o que vem depois: administrar o território conquistado.
3. A sequência administrativa inicial
A sequência tradicional usada como eixo de estudo é:
Jerônimo de Albuquerque Maranhão → Antônio de Albuquerque → Domingos da Costa Machado → Antônio Moniz Barreiros
| Nome | O que guardar |
|---|---|
| Jerônimo de Albuquerque Maranhão | ligado à conquista e à primeira administração portuguesa; morreu em 1618 |
| Antônio de Albuquerque | filho e sucessor de Jerônimo; governo breve |
| Domingos da Costa Machado | sucede Antônio; a narrativa tradicional situa sua administração entre 1619 e 1622 |
| Antônio Moniz Barreiros | sucede Domingos a partir de 1622, ainda durante a reorganização administrativa |
O objetivo da sequência não é decorar biografias isoladas. Ela mostra a passagem do comando de conquista para uma administração colonial continuada.
4. Por que “primeiro capitão-mor” exige cautela
As fontes não organizam as listas exatamente do mesmo modo.
Uma narrativa administrativa tradicional do século XX apresenta Jerônimo de Albuquerque como o primeiro capitão-mor do Maranhão. Já estudo historiográfico recente reproduz um catálogo manuscrito da Biblioteca Pública de Évora cuja relação começa com Alexandre de Moura em 1615 e Jerônimo em 1616.
O próprio estudo moderno alerta que esse catálogo possui lacunas, situações especiais e problemas de classificação.
A diferença aparece também na data de Domingos da Costa Machado: a narrativa administrativa tradicional o situa a partir de 1619, enquanto a tabela do catálogo de Évora, reproduzida por Fabiano Vilaça dos Santos, registra 3 de abril de 1618. Trata-se de datas atribuídas a registros diferentes; não se deve uni-las em uma cronologia artificial nem apresentar uma delas como consenso indiscutível.
Portanto, não há ganho em transformar uma divergência documental em certeza artificial.
Regra de prova
- se o enunciado pedir a sucessão administrativa tradicional após a conquista, a sequência Jerônimo → Antônio → Domingos → Antônio Moniz é a referência desta unidade;
- se a questão fornecer uma fonte, catálogo ou critério específico, siga o critério apresentado;
- desconfie de expressões como “todas as fontes”, “sempre” ou “consenso absoluto”.
5. A criação do Estado do Maranhão muda a estrutura
Em 1621, a Coroa criou o Estado do Maranhão, separando sua administração da estrutura centrada no Estado do Brasil.
Essa criação não produziu instantaneamente a configuração administrativa definitiva. O processo levou alguns anos. Em 1626, Francisco Coelho de Carvalho tomou posse como governador e capitão-general, autoridade de nível superior na nova organização.
O ponto decisivo é:
1621 abre uma transição; 1626 marca a instalação de uma nova chefia superior.
Isso não significa que o título de capitão-mor desapareceu para sempre.
6. O cargo continuou em fases posteriores
Estudo sobre os séculos XVII e XVIII mostra que, em fases posteriores do Estado do Maranhão e Grão-Pará, governadores podiam permanecer em Belém e capitães-mores respondiam pela administração do Maranhão de maneira subordinada durante a ausência do governador.
Isso confirma que o título teve funções históricas variáveis.
Compare:
| Contexto | Função que importa |
|---|---|
| Primeiras décadas do século XVII | conquista, defesa e administração inicial |
| Estrutura posterior do Estado do Maranhão e Grão-Pará | administração subordinada da capitania em certas ausências do governador |
Logo, “capitão-mor” não identifica uma função única válida para todos os períodos.
7. Quatro contrastes para acertar questões
Conquista × administração: vencer militarmente não equivale a organizar governo.
Cargo × pessoa: capitão-mor é uma função institucional; os ocupantes mudam.
Lista tradicional × consenso universal: a sequência inicial é útil para prova, mas sua numeração não deve ser projetada como unanimidade das fontes.
1621 × 1626: criação do Estado e posse do primeiro governador e capitão-general da nova organização são marcos diferentes.
8. Mapa final
Retenha esta lógica:
fim da presença francesa organizada → administração portuguesa inicial → sucessão de capitães-mores → criação do Estado do Maranhão em 1621 → nova chefia superior em 1626 → permanência posterior do título em funções subordinadas variáveis
Assim, os capitães-mores deixam de ser uma lista de nomes e passam a representar um problema histórico claro: como transformar conquista territorial em governo colonial.
Referências
Referências — Capitães-mores do Maranhão
- Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos. Edital nº 1 — Perícia Oficial do Maranhão 2026, versão consolidada até o Edital nº 3. História do Maranhão, item 4: capitães-mores do Maranhão. https://cdn.cebraspe.org.br/concursos/PERICIA_OFICIAL_MA_26/arquivos/4D20E2DA7DBC1641876662EB9AA0D7675004148D54B063FCBFE7EFC58355E6C2.pdf.
- SANTOS, Fabiano Vilaça dos. Os capitães-mores do Maranhão e a administração da capitania em tempo de governador ausente (c. 1673–1751). História, v. 40, 2021, e2021028. Estudo historiográfico sobre funções posteriores do cargo e crítica ao catálogo manuscrito da Biblioteca Pública de Évora. https://www.scielo.br/j/his/a/pwnRVrmyV6LWdrNX5fW4WSz/.
- VIVEIROS, Jerônimo de. Administração portuguêsa na capitania do Maranhão. Revista do Serviço Público, jan. 1946. Narrativa administrativa tradicional usada para a sucessão inicial de Jerônimo de Albuquerque, Antônio de Albuquerque, Domingos da Costa Machado e Antônio Moniz Barreiros. https://revista.enap.gov.br/index.php/RSP/article/download/7678/4773/24377.
- Universidade de Brasília. São Luís — Atlas Digital da América Lusa. Contexto da passagem da conquista para a organização administrativa portuguesa. https://lhs.unb.br/atlas/index.php?title=S%C3%A3o_Lu%C3%ADs.
Revalidação de cronologia divergente
- Conferência dirigida de 12/10/2026: a tabela 1 do artigo de Fabiano Vilaça dos Santos, já referenciado acima, reproduz a entrada de Domingos da Costa Machado em 3 de abril de 1618 no catálogo de Évora. A narrativa de Jerônimo de Viveiros, também identificada acima, serve de base à sequência tradicional que situa a administração de Domingos a partir de 1619. A aula e o resumo atribuem cada cronologia à respectiva fonte, sem alegar consenso universal ou leitura integral de artigo, catálogo manuscrito ou documentação histórica nesta nova consulta.
Proveniência e fronteiras
- Classificação parcial/local. Origem física somente leitura O045:
src/content/assuntos/pc-ma-2026-oficial-investigador/conhecimentos-gerais/historia-maranhao/franca-equinocial-fundacao-guaxenduba-capitaes-mores/. - Foram reaproveitadas nove questões autorais
u062-a01–u062-a09, mantendo IDs, revisões eorigin; sete questões novasper-u049-a01–per-u049-a07completam contrastes e aplicação. Não foi localizada questão anterior específica e verificável sobre capitães-mores no acervo consultado; nenhuma atribuição de banca foi inventada. - França Equinocial, fundação de São Luís e Guaxenduba pertencem a PER-U048 e não são reensinadas aqui; aparecem apenas como ponte para a transição conquista → governo.
- A divergência sobre a expressão “primeiro capitão-mor” é preservada. A unidade não normaliza silenciosamente listas construídas com critérios diferentes.
- Matéria histórica; corte legislativo/jurisprudencial não é material. Consulta editorial: 05/10/2026.