Gestão de projetos
1. Entregar uma mudança e fazê-la valer
Situação hipotética, retomada neste capítulo: um órgão quer implantar um portal de atendimento. Construir, testar e colocar o portal em funcionamento exige um esforço com começo e fim: um projeto. Atender diariamente pelo portal e mantê-lo funcionando constitui operação, trabalho continuado.
Projeto é um empreendimento temporário que cria produto, serviço ou resultado único. Temporário não significa curto; singular não significa totalmente inédito. Podem existir tarefas repetidas e tecnologia conhecida, mas aquela implantação tem objetivos, condições e entregas próprios. O produto — aqui, o portal — pode continuar existindo muito depois do projeto.
A entrega também não garante o benefício. Portal instalado é uma saída; cidadãos passarem a utilizá-lo é um resultado; redução do tempo de atendimento é um benefício mensurável. O valor público envolve a importância desses efeitos diante das necessidades sociais, custos, riscos e restrições: um portal barato e pontual, mas inacessível ao público-alvo, não basta.
Quando vários projetos relacionados precisam de coordenação para produzir benefícios que a gestão isolada não obteria, há um programa. Digitalizar canais, capacitar servidores e integrar bases podem compor um programa; ele não é apenas um projeto grande. Já o portfólio reúne projetos, programas e até operações selecionados para objetivos estratégicos, mesmo sem relação técnica entre si. Sua pergunta central é quais iniciativas merecem os recursos disponíveis.
2. Por que autorizar e quem pode decidir
Antes de mobilizar a equipe, é preciso justificar a mudança e definir autoridade. O caso de negócio, ou business case, compara necessidades, alternativas, custos, riscos e benefícios esperados para fundamentar o investimento. Não se resume a rentabilidade financeira.
A autorização formal ocorre pelo termo de abertura do projeto, ou TAP: reconhece o projeto, designa o gerente e sua autoridade, registra objetivos, requisitos gerais, principais restrições e marcos. Não contém todo o planejamento detalhado.
O plano de gerenciamento integra como o trabalho será executado, acompanhado e encerrado. Suas linhas de base são versões aprovadas de referências como escopo, cronograma e custos: permitem comparar realizado e previsto. Não são imutáveis, mas não podem ser alteradas informalmente para esconder desvios. O plano de benefícios identifica benefícios, indicadores, responsáveis e momentos de medição, inclusive após o encerramento.
Governança define direção, responsabilidades, limites decisórios e supervisão; gerenciamento coordena o trabalho dentro deles. O patrocinador sustenta a justificativa, apoia recursos e resolve questões acima da autoridade do gerente. O gerente integra decisões e conduz a equipe; cliente ou representante autorizado participa da aceitação, enquanto usuários utilizarão a entrega. Esses papéis não precisam corresponder à mesma pessoa.
Um escritório de gerenciamento de projetos, EGP, também chamado PMO, pode assumir diferentes graus de controle na classificação tradicional:
- Suporte: aconselha, oferece modelos, capacitação e conhecimento; baixo controle.
- Controle: exige conformidade com métodos, documentos ou estruturas; controle moderado.
- Diretivo: gerencia diretamente projetos, designando e supervisionando gerentes; alto controle.
A classificação descreve sua atuação, não uma autorização para ultrapassar competências legais. Ter esse escritório não significa que toda a organização esteja estruturada por projetos.
3. Escolher como desenvolver, sem confundir fases e gerenciamento
O ciclo de vida reúne as fases do início à conclusão. Cada fase agrupa atividades relacionadas que culminam em entregas; fases podem suceder-se, sobrepor-se ou repetir-se. Em uma implantação, concepção e implantação técnica são fases possíveis. Planejar e controlar, porém, podem ocorrer em ambas: grupos de processos de gerenciamento não são fases obrigatoriamente lineares.
A escolha da abordagem depende sobretudo do que já se conhece e de como se aprenderá:
- Preditiva: detalha antecipadamente grande parte do escopo, prazo e custo; favorecida por requisitos estáveis.
- Iterativa: refina a solução em repetições. Testar sucessivas versões de uma tela ajuda a descobrir como ela deve funcionar.
- Incremental: acrescenta parcelas utilizáveis. Liberar primeiro o agendamento e depois o acompanhamento de solicitações entrega capacidade por partes.
- Adaptativa: combina aprendizagem frequente, participação dos interessados e replanejamento para lidar com mudanças e incerteza; pode ser iterativa e incremental.
- Híbrida: combina deliberadamente abordagens, como infraestrutura planejada antecipadamente e funcionalidades desenvolvidas com retornos frequentes dos usuários.
Iterar é refinar; incrementar é acrescentar entrega utilizável. As duas características podem coexistir. Nenhuma abordagem é universalmente superior.
Adaptar práticas, documentos e controles ao contexto chama-se tailoring. Não significa eliminar planejamento nem dispensar a lei. Em geral, incerteza e possibilidade de influenciar a solução são maiores no início, enquanto modificar uma entrega já construída tende a custar mais. São tendências, não curvas obrigatórias idênticas em todos os projetos.
4. Transformar necessidades em escopo e qualidade verificáveis
No portal hipotético, “permitir acompanhar a solicitação” descreve característica desejada: escopo do produto. Levantar requisitos, desenvolver, testar e capacitar usuários são trabalhos necessários para produzi-la: escopo do projeto. A declaração de escopo esclarece entregas, inclusões, exclusões, restrições e critérios de aceitação. Requisitos devem ser verificáveis e ligados às entregas que os atendem.
Para tornar esse trabalho administrável, decompõe-se o conjunto em partes menores orientadas a entregas. Essa é a Estrutura Analítica do Projeto, EAP, ou WBS. Seus níveis inferiores são pacotes de trabalho, suficientemente definidos para estimar recursos, atribuir responsabilidade e acompanhar realização.
A regra dos 100% exige representar todo o escopo aprovado, inclusive o gerenciamento, sem omissão nem dupla contagem. A EAP não é organograma, cronograma ou simples lista de atividades. Seu dicionário esclarece cada componente. Na abordagem preditiva tradicional, declaração de escopo + estrutura analítica + dicionário formam a linha de base do escopo.
Os critérios devem orientar a execução desde o início. Planejar a qualidade define requisitos e formas de demonstrar conformidade; gerenciar a qualidade melhora os processos usados para atendê-los; controlar a qualidade verifica os resultados produzidos. Validação do escopo é aceitação formal das entregas; controle da qualidade é verificação técnica de conformidade. A verificação sustenta o aceite, mas não o substitui.
Qualidade também não é sinônimo de grau: um portal simples, com poucas funcionalidades, pode cumprir integralmente seus requisitos; um portal sofisticado pode falhar neles. Os custos da qualidade abrangem prevenção, avaliação e falhas — internas, detectadas antes da entrega, ou externas, percebidas depois.
5. Organizar pessoas e participação
Partes interessadas, ou stakeholders, são pessoas, grupos ou organizações que podem afetar, ser afetados ou perceber-se afetados pelo projeto. Além de equipe e patrocinador, podem incluir cidadãos, fornecedores, órgãos de controle e grupos contrários à solução.
Identificá-los não encerra o trabalho: interesses e influência mudam. O registro de partes interessadas reúne informações para analisar poder, interesse, legitimidade, expectativas e postura. Um plano de comunicação define o que informar, a quem, por qual canal, quando e como obter retorno. Comunicar transmite e troca informação; engajar promove participação e compromisso. Enviar um relatório não garante que o usuário consiga influenciar um requisito inadequado.
Para evitar tarefas sem responsável ou aprovações ambíguas, a matriz RACI relaciona atividades e papéis: R executa; A responde pela entrega e sua aprovação; C é consultado; I é informado. Recomenda-se um único responsável final por atividade, embora possa haver vários executores.
A equipe precisa de competências, disponibilidade, colaboração e tratamento de conflitos. Divergência pode melhorar uma decisão; suprimi-la não é necessariamente bom gerenciamento. Segurança psicológica significa poder levantar dúvidas, riscos e erros sem medo de humilhação, não ausência de responsabilidade pelos atos.
6. Construir e ajustar o cronograma
Entregas precisam ser convertidas em atividades, com duração, recursos e dependências. Um marco assinala evento relevante e tem duração zero. A dependência indica qual acontecimento na atividade predecessora limita o início ou o término da sucessora; não obriga que ambas sejam inteiramente sequenciais.
| Relação, sem antecipação ou espera adicional | Restrição sobre a sucessora |
|---|---|
| Término–início, TI | Não começa antes do término da predecessora |
| Término–término, TT | Não termina antes do término da predecessora |
| Início–início, II | Não começa antes do início da predecessora |
| Início–término, IT | Não termina antes do início da predecessora |
Uma antecipação, ou lead, permite adiantar a sucessora em relação à dependência; uma espera, ou lag, acrescenta intervalo. A viabilidade técnica da sobreposição deve ser respeitada.
Para estimar duração ou custo, a técnica análoga usa projetos semelhantes e costuma ser rápida, mas menos precisa; a paramétrica aplica relações quantitativas, como tempo por unidade; a bottom-up estima componentes detalhados e agrega seus valores, exigindo mais informação e esforço.
Incerteza nas estimativas
A estimativa de três pontos explicita um cenário otimista, O, um mais provável, M, e um pessimista, P. Na aproximação tradicional da PERT, ou técnica de avaliação e revisão de programas, a duração esperada, TE, dá peso maior ao cenário mais provável:
O, M, P, TE e o desvio-padrão usam a mesma unidade de tempo; a variância usa essa unidade ao quadrado. São aproximações baseadas nos três cenários, não garantias de prazo. A média triangular, por sua vez, atribui pesos iguais: .
Aplicação hipotética: para uma atividade do portal, O = 4 dias, M = 7 dias e P = 16 dias. A duração esperada é dias; o desvio-padrão, 2 dias; a variância, 4 dias². O cenário pessimista eleva a média acima do tempo mais provável.
O que realmente determina a data final
O caminho crítico é a sequência de atividades de maior duração na rede, determinando o menor prazo possível segundo suas durações e dependências. No modelo usual sem restrições adicionais, tem folga total zero. Pode haver vários caminhos críticos, e eles podem mudar. Crítico se refere ao prazo, não ao maior custo ou risco.
Folga total é quanto uma atividade pode atrasar sem comprometer o término previsto do projeto; folga livre, quanto pode atrasar sem adiar o início mais cedo de uma sucessora. A segunda protege a próxima atividade, não apenas a data final.
O nivelamento de recursos ajusta datas à disponibilidade real e pode ampliar o prazo. Para comprimir duração sem reduzir escopo, há duas técnicas principais: compressão com recursos, ou crashing, acrescenta recursos nas atividades adequadas, geralmente com maior custo; paralelismo, ou fast tracking, sobrepõe trabalhos antes sequenciais, elevando risco de retrabalho. Acelerar uma atividade não crítica pode não antecipar o projeto.
7. Medir custo junto com trabalho realizado
Gastar metade do orçamento não demonstra que metade do projeto esteja pronta. O gerenciamento do valor agregado, GVA ou EVM, compara o custo planejado, o trabalho efetivamente concluído e o gasto real em uma mesma data.
Antes, distinga reservas: a reserva de contingência cobre riscos identificados e integra a linha de base dos custos; a reserva gerencial atende trabalho imprevisto dentro do escopo e fica fora dessa linha de base, embora componha o orçamento total. Seu uso exige autorização e, quando incorporado ao trabalho, atualização apropriada da referência.
Na terminologia de valor agregado, o orçamento da linha de base para todo o trabalho é BAC, orçamento no término. Três medidas alimentam a análise:
| Medida | O que representa, em dinheiro |
|---|---|
| Valor planejado: VP ou PV | Orçamento do trabalho que deveria estar concluído na data |
| Valor agregado: VA ou EV | Orçamento correspondente ao trabalho efetivamente concluído |
| Custo real: CR ou AC | Gasto efetivo para realizar esse trabalho |
No exemplo hipotético, estavam previstos trabalhos orçados em 120 mil reais; foram concluídos trabalhos orçados em 100 mil, gastando-se 125 mil. Logo, PV = 120, EV = 100 e AC = 125, todos em milhares de reais. Valor agregado não é receita nem o valor social do benefício: é trabalho realizado expresso pelo orçamento.
A variação de custo, CV, compara entrega e gasto; a variação de prazo, SV, compara entrega realizada e planejada. Os índices de desempenho de custo, CPI, e de prazo, SPI, fazem as mesmas comparações por divisão:
Diferenças positivas e índices superiores a 1 indicam situação favorável na dimensão medida; diferenças negativas e índices abaixo de 1, desfavorável. Zero nas diferenças e 1 nos índices indicam equivalência. Os denominadores dos índices precisam ser diferentes de zero.
No exemplo: variação de custo = −25 mil; variação de prazo = −20 mil; índice de custo = 0,80; índice de prazo ≈ 0,83. Gastou-se mais para entregar menos trabalho do que o previsto. A variação de prazo está em dinheiro, não em dias. Ao concluir todo o trabalho da linha de base, ela tende a zero mesmo se o término tiver ocorrido com atraso: não substitui a análise do cronograma.
Prever o custo final
A estimativa no término, EAC, depende do que se espera para o trabalho restante:
Essa fórmula supõe continuidade da eficiência de custos observada. Se o orçamento no término fosse 1.000 mil reais e o índice de custo permanecesse em 0,80, o custo total projetado seria 1.250 mil reais.
Se o desvio passado for excepcional e o restante puder ser executado ao custo originalmente orçado, usa-se:
Com os mesmos dados, a previsão seria mil reais. Não são fórmulas intercambiáveis: suas hipóteses diferem.
A estimativa para terminar, ETC, representa quanto ainda deverá ser gasto; a variação no término, VAC, compara orçamento e previsão final:
Ambas usam a unidade monetária das demais medidas. Variação final negativa indica estouro projetado do orçamento.
8. Tratar incertezas antes que virem problemas
Risco é evento ou condição incerta que pode afetar objetivos positiva ou negativamente. A ameaça prejudica; a oportunidade favorece. Se o evento já ocorreu, passa a exigir tratamento como problema ou questão atual, não apenas como possibilidade futura.
O processo identifica causas e efeitos possíveis, analisa probabilidade e impacto, quantifica quando necessário, prioriza riscos, planeja respostas, atribui responsáveis, implementa ações e monitora resultados. Uma possível mudança regulatória é risco externo; indisponibilidade da equipe, risco interno. A classificação ajuda a localizar a origem, mas não determina sozinha a resposta.
Para ameaças, pode-se evitar a exposição, mitigar probabilidade ou impacto, transferir responsabilidade pela resposta e seus efeitos a terceiro, ou aceitar o risco. Para oportunidades, explorar busca assegurar o efeito favorável; melhorar aumenta sua probabilidade ou impacto; compartilhar envolve parceiro mais capaz de aproveitá-la; aceitar mantém a possibilidade sem persegui-la ativamente.
As respostas devem ser proporcionais ao risco e ao custo-benefício. Transferir não elimina o risco. Aceitação ativa prepara contingência; a passiva não predefine resposta, mantendo acompanhamento. Se a decisão excede a autoridade do projeto, escalonar leva o risco ao nível competente, tanto para ameaça quanto para oportunidade.
Risco residual permanece após a resposta; risco secundário nasce da própria resposta. Um gatilho é sinal de que uma ação prevista deve ser acionada. A contratação de apoio para mitigar falta de pessoal, por exemplo hipotético, pode criar dependência do fornecedor: um novo risco que precisa de tratamento.
9. Contratar sem confundir documentos gerenciais e legais
Aquisições começam pela decisão de produzir internamente ou contratar. Na classificação gerencial de contratos, preço fixo tende a atribuir maior risco de custo ao fornecedor quando o escopo está bem definido; custos reembolsáveis deixam maior parcela desse risco com o comprador; tempo e materiais combinam características. Essas categorias não substituem os regimes legais brasileiros.
Na Lei nº 14.133/2021, artigo 6º, os documentos respondem a perguntas diferentes:
- Estudo Técnico Preliminar, ETP: caracteriza a necessidade pública e a melhor solução na primeira etapa do planejamento; fundamenta os documentos seguintes se a contratação for viável.
- Termo de Referência, TR: especifica a contratação de bens e serviços, incluindo objeto, fundamentação, solução, requisitos, execução, gestão, medição, pagamento, seleção do fornecedor, estimativa de valor e adequação orçamentária.
- Projeto básico: define e dimensiona obra ou serviço com precisão suficiente para avaliar custos, métodos e prazo, considerando viabilidade técnica e impacto ambiental.
- Matriz de riscos: cláusula contratual de alocação de riscos e responsabilidades entre as partes, ligada ao equilíbrio econômico-financeiro inicial.
O termo de abertura autoriza o projeto, não equivale ao termo de referência. O caso de negócio justifica investimento, mas não substitui automaticamente o estudo exigido pela lei. Registro de riscos do projeto também não equivale à matriz contratual.
A alta administração responde pela governança das contratações e por seu alinhamento estratégico e orçamentário, conforme o artigo 11. Métodos gerenciais não ampliam, por si, as competências legais do gerente.
10. Executar, observar desvios e controlar mudanças
A execução produz entregas; monitoramento e controle comparam o realizado com as referências, investigam desvios e orientam decisões. Dados de desempenho são observações, como gasto e quantidade concluída; informações resultam da análise; relatórios organizam essas informações para comunicar e decidir. Percentual de tarefas concluídas não mede automaticamente benefício ou valor.
Ação corretiva busca realinhar o desempenho futuro ao plano; preventiva reduz a probabilidade de desvios futuros; reparo de defeito corrige entrega não conforme. Essas ações podem exigir autorização de mudança.
Uma solicitação de alteração percorre registro, análise integrada dos impactos, decisão da autoridade competente, atualização das referências pertinentes se aprovada, comunicação e implementação. A decisão pode aprovar, rejeitar ou adiar. O gerente não deve aprovar sozinho toda mudança só por conduzir o projeto.
O controle de configuração identifica versões e características dos itens; o controle de mudanças decide se a alteração será autorizada. Em abordagens adaptativas, a lista priorizada de trabalho pode evoluir frequentemente, mas objetivos, limites de autoridade e restrições continuam existindo.
11. Scrum: aprender em ciclos curtos e entregar algo utilizável
Quando a solução depende de aprendizagem, planejar tudo detalhadamente de uma vez pode ser pouco confiável. Scrum oferece uma estrutura leve de trabalho para gerar valor em problemas complexos: escolher um objetivo próximo, produzir algo utilizável, inspecionar o resultado e adaptar o próximo passo. É um framework, não uma metodologia que prescreve todas as técnicas.
O Guia do Scrum de novembro de 2020 fundamenta essa dinâmica no empirismo, que usa experiência e observação para decidir, e no pensamento Lean, que busca reduzir desperdícios e concentrar esforço no essencial. Seus pilares são transparência, inspeção e adaptação; os valores, comprometimento, foco, abertura, respeito e coragem.
Pessoas, objetivo e trabalho visível
O Scrum Team é uma equipe coesa, multifuncional e autogerenciável: reúne as habilidades necessárias e decide internamente quem faz o quê, quando e como. Normalmente tem dez pessoas ou menos, sem subequipes ou hierarquias internas. Há três responsabilidades específicas:
- Product Owner: maximiza o valor do produto e responde pela gestão eficaz do trabalho priorizado. É uma pessoa, não um comitê; pode delegar tarefas, mas conserva sua responsabilidade.
- Scrum Master: responde pela efetividade e compreensão do Scrum, desenvolve a autogestão e ajuda a remover impedimentos; não é chefe distribuidor de tarefas.
- Developers: produzem o incremento utilizável, planejam o trabalho do ciclo, cuidam da qualidade e adaptam o plano diariamente. O nome não limita a função a programadores.
A visão de longo prazo se expressa na Meta do Produto. O Product Backlog é a lista ordenada e emergente do que se necessita para melhorá-lo, sendo a única fonte do trabalho da equipe. Seu refinamento decompõe e detalha itens continuamente; não é um evento formal adicional.
O trabalho ocorre em Sprints, ciclos de duração fixa de um mês ou menos. Cada ciclo possui uma Meta da Sprint, objetivo único que dá sentido ao trabalho escolhido. O Sprint Backlog reúne essa meta, os itens selecionados e o plano para entregá-los, elaborado e atualizado pelos Developers.
O resultado é um Incremento, parcela utilizável que funciona com o que já existe. A Definição de Pronto estabelece o estado de qualidade exigido para que o trabalho integre esse resultado. No portal hipotético, código escrito sem as verificações de segurança exigidas não constitui incremento pronto só porque consumiu horas.
Esses compromissos tornam o trabalho inspecionável:
| Artefato | Compromisso associado |
|---|---|
| Product Backlog | Meta do Produto |
| Sprint Backlog | Meta da Sprint |
| Incremento | Definição de Pronto |
Eventos e limites
A Sprint contém os outros quatro eventos e começa novamente logo após a anterior. No Sprint Planning, toda a equipe planeja por que o ciclo é valioso, o que pode ser entregue e como fazê-lo. Na Daily Scrum, os Developers inspecionam o progresso em direção à meta e ajustam o plano; não prestam contas hierárquicas ao gerente.
A Sprint Review inspeciona o resultado com interessados e adapta o caminho do produto: é sessão de trabalho, não apenas demonstração. A Sprint Retrospective examina como a equipe trabalhou e planeja melhorias de qualidade e eficácia, concluindo o ciclo.
Para Sprint de um mês, os limites máximos são oito horas para planejamento, quatro para revisão e três para retrospectiva. Em Sprints menores, esses eventos costumam ser mais curtos. A reunião diária dura quinze minutos.
Durante a Sprint, não se admitem mudanças que coloquem sua meta em risco nem redução da qualidade; o escopo pode ser esclarecido e renegociado com o Product Owner conforme se aprende. Somente o Product Owner pode cancelar a Sprint, quando sua meta se torna obsoleta. Um incremento pode ser liberado antes da revisão: ela não é uma barreira obrigatória à entrega de valor.
Histórias de usuário, pontos de história, velocidade, burndown e Kanban podem apoiar a equipe, mas não são prescrições obrigatórias do Guia. No setor público, a adaptação precisa respeitar orçamento, contratos, segurança, acessibilidade e proteção de dados.
12. Encerrar o projeto sem abandonar o resultado
Encerrar exige formalizar o aceite cabível, transferir entregas e conhecimento à operação, tratar obrigações contratuais, liberar recursos, arquivar registros e consolidar o relatório final. Projeto cancelado também precisa de encerramento formal, compatível com o que efetivamente foi realizado.
As lições aprendidas devem ser registradas durante o trabalho, quando ainda podem orientar correções, e consolidadas ao final. Benefícios que aparecerão depois precisam de responsáveis e indicadores na operação.
No portal hipotético, a equipe temporária pode encerrar a implantação após o aceite e a transição, enquanto a área de atendimento continua medindo tempo, acesso e satisfação. Concluir o projeto e comprovar todos os seus benefícios são acontecimentos distintos.
13. Distinguir referências e edições na prova
As práticas estudadas podem receber classificações diferentes conforme a publicação. O PMI publica o Guia PMBOK, que reúne conhecimentos de gerenciamento; ele não é uma metodologia única nem exige a aplicação indiferenciada de todas as ferramentas.
O edital de abertura é de 6 de julho de 2026. Seu corte legislativo considera alterações em vigor até a publicação, ressalvadas as previsões expressas do próprio edital. Já a edição técnica deve ser identificada conforme o enunciado: a 8ª edição do guia, publicada em novembro de 2025, já existia no corte, sem invalidar questões que cobrem expressamente edições anteriores.
Três formas de organizar o conhecimento
Na 6ª edição do PMBOK, de 2017, a referência tradicional reúne 49 processos, cinco grupos e dez áreas de conhecimento. Os grupos são iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle, e encerramento. As áreas são integração, escopo, cronograma, custos, qualidade, recursos, comunicações, riscos, aquisições e partes interessadas. Integração coordena as decisões entre elas: economizar numa aquisição pode aumentar risco e prazo.
A 7ª edição do PMBOK, de 2021, enfatiza 12 princípios e oito domínios de desempenho. Princípios orientam comportamentos; domínios reúnem atividades inter-relacionadas essenciais aos resultados.
Os princípios abrangem responsabilidade diligente e respeitosa; colaboração da equipe; engajamento dos interessados; foco em valor; visão das interações do sistema; liderança; adaptação ao contexto; qualidade; tratamento da complexidade; otimização das respostas aos riscos; adaptabilidade e resiliência; e promoção da mudança necessária ao estado futuro. Resiliência é a capacidade de recuperar-se e seguir produzindo resultados diante de dificuldades.
Os oito domínios são partes interessadas; equipe; abordagem de desenvolvimento e ciclo de vida; planejamento; trabalho do projeto; entrega; medição; e incerteza. A edição também organiza modelos, métodos e artefatos — formas de representar, procedimentos e instrumentos de trabalho — escolhidos conforme o contexto, não como pacote obrigatório.
A 8ª edição do PMBOK reorganiza a orientação em seis princípios, sete domínios e cinco áreas de foco:
- Princípios: visão holística — considerar o conjunto e suas relações —, foco em valor, qualidade nos processos e entregas, liderança responsável, sustentabilidade e cultura de autonomia e responsabilidade.
- Domínios: governança, escopo, cronograma, finanças, partes interessadas, recursos e riscos.
- Áreas de foco: iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle, e encerramento.
A retomada de orientação por processos não transforma essas áreas em fases lineares, nem autoriza atribuir à edição atual a antiga lista de dez áreas.
Guias complementares e alcance no setor público
Process Groups: A Practice Guide, publicado em novembro de 2022, oferece orientação preditiva com 49 processos nos cinco grupos tradicionais. Esse número pertence a esse recorte e à referência histórica da 6ª edição, não a uma exigência universal para qualquer abordagem.
A ISO 21502:2020 oferece diretrizes de gerenciamento de projetos para diferentes organizações, tamanhos e abordagens. Não prescreve um método único nem é, por si, uma norma de requisitos para certificação. Programa e portfólio aparecem como contexto, não como objetos de orientação detalhada dessa norma.
Por fim, o Decreto nº 9.203/2017 disciplina a governança da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. Nele, mecanismos de liderança, estratégia e controle servem para avaliar, direcionar e monitorar a gestão. Essa relação ajuda a compreender a governança de projetos, mas suas obrigações não se aplicam automaticamente ao tribunal estadual.
Referências
Referências técnicas
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. PMBOK Guide — Eighth Edition. Novembro de 2025; seis princípios e sete domínios. Sumário oficial da 8ª edição: princípios, domínios e cinco áreas de foco.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. The Standard for Project Management and A Guide to the Project Management Body of Knowledge — Seventh Edition. 2021. Obra original e apresentação editorial: 12 princípios e oito domínios. Material oficial sobre adaptação ao contexto.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. PMBOK Guide — Sixth Edition and Agile Practice Guide. 2017. Referência histórica da organização em processos, grupos e áreas de conhecimento.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Process Groups: A Practice Guide. Publicado em 7 de novembro de 2022. Obra original e apresentação editorial: abordagem preditiva, 49 processos e cinco grupos.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Practice Standard for Scheduling — Second Edition. 2011. Fundamentos de dependências, estimativas, caminho crítico e folgas; referência técnica histórica, não indicação da edição mais recente.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. The Standard for Earned Value Management. Fevereiro de 2020. Integração de escopo, cronograma e recursos para medição e previsão.
- INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 21502:2020 — Project, programme and portfolio management: Guidance on project management. Primeira edição, dezembro de 2020. Diretrizes para projetos de diferentes organizações e abordagens.
- SCHWABER, Ken; SUTHERLAND, Jeff. Guia do Scrum. Novembro de 2020, tradução oficial em português brasileiro. Responsabilidades, eventos, artefatos e compromissos.
- OLIVEIRA, Tiago Chaves. Guia referencial para gerenciamento de projetos e portfólios de projetos. Brasília: Escola Nacional de Administração Pública, 2021. Registro bibliográfico institucional; guia técnico, não norma legal.
- ESCOLA NACIONAL DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. Gerenciamento do cronograma e dos custos do projeto. Módulo III, 2017. Material didático institucional sobre estimativas, cronograma e custos.
Legislação e corte do concurso
- BRASIL. Decreto nº 9.203, de 22 de novembro de 2017. Artigos 1º e 2º: âmbito federal e conceito de governança pública.
- BRASIL. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Artigo 6º, incisos XX, XXIII, XXV e XXVII, e artigo 11, parágrafo único: documentos e governança das contratações.
- TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO MARANHÃO; CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026. Subitens 13.32–13.33.1 e conhecimentos específicos do cargo de Analista — Administração.
Cobrança em provas oficiais
- FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Comissão de Valores Mobiliários — Analista, perfil 5, Gestão, tipo 1, tarde. 2024, questões 27 e 30: abordagens de desenvolvimento e ciclo de vida.
- FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Secretaria Municipal de Fazenda de Cuiabá — Tecnologia da Informação, prova II, tipo 1. 2024, questão 22: estimativa por agregação de componentes detalhados.
- FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Amazônia Azul Tecnologias de Defesa — Analista de Negócios, tipo 1. 2026, questões 49–51: entregas, registro de partes interessadas e risco externo.
- FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Controladoria-Geral do Município de Belo Horizonte — Auditor Interno, Administração, tipo 1. 2024, questão 73: tipos de escritório de gerenciamento de projetos.
Consulta das páginas públicas: 8 de setembro de 2026. O repositório da Escola Nacional de Administração Pública apresentou manutenção durante a consulta; a identificação bibliográfica foi preservada. Data de consulta não altera o corte do edital nem a edição expressamente cobrada.