Verbo como classe de palavras
“A análise do recurso” nomeia uma atividade; “A comissão analisou o recurso” apresenta essa atividade como acontecimento. Análise é substantivo; analisou é verbo. Não basta procurar uma “palavra de ação”: análise também nomeia uma ação, enquanto está, em “A servidora está tranquila”, exprime estado.
O verbo exprime um processo — ação, estado, mudança de estado ou fenômeno — e pode receber marcas de pessoa, número, tempo e modo. Compare analisou, permaneceu calma, ficou preocupada e choveu: todos são empregos verbais. Os exemplos deste capítulo são hipotéticos.
1. Como reconhecer e decompor uma forma verbal
Trocar “eu analiso” por “nós analisamos” muda pessoa e número: quem fala é primeira pessoa; o interlocutor, segunda; aquele de quem se fala, terceira; singular e plural distinguem as formas. Você designa o interlocutor, mas exige terceira pessoa: “você analisa”. Trocar analiso por analisava muda o tempo; trocar “sei que analisa” por “espero que analise” envolve o modo, a maneira gramatical de apresentar o processo.
Os modos são indicativo, subjuntivo e imperativo: apresentam, respectivamente, o conteúdo como afirmado, subordinado a hipótese ou avaliação, ou dirigido ao interlocutor como pedido, ordem ou orientação. Não são rótulos automáticos de verdade e falsidade. Emprego de tempos e modos verbais aprofunda esses valores.
As partes que carregam significado e flexão
Em cantar, cantava e cantávamos, a parte cant- mantém o significado básico: é o radical. As partes acrescentadas organizam a conjugação e a flexão, isto é, as mudanças de forma que expressam categorias gramaticais. Conjugar é distribuir as formas do verbo pelas pessoas, números, tempos e modos; esse conjunto constitui seu paradigma.
Em cant-á-va-mos, distinguem-se:
| Parte | Nome e informação |
|---|---|
| cant- | Radical: significado básico de cantar |
| -a- | Vogal temática: associa o verbo à primeira conjugação |
| canta- | Tema: radical mais vogal temática |
| -va- | Desinência modo-temporal: indica pretérito imperfeito do indicativo, isto é, passado apresentado em desenvolvimento ou como hábito |
| -mos | Desinência número-pessoal: indica primeira pessoa do plural |
Desinências são terminações que expressam flexão. Na segmentação tradicional de beb-i-a e faz-i-a, o -i- é vogal temática e o -a- marca tempo e modo. Nem toda forma apresenta essas partes separáveis: não force o modelo sobre sou ou fiz.
As três conjugações agrupam verbos em -ar (analisar), -er (vender) e -ir (partir). Pôr e seus derivados pertencem à segunda, vinculados à antiga forma poer: propor e compor não criam uma quarta conjugação. Essa classificação consta da Nomenclatura Gramatical Brasileira, ou NGB.
A sílaba pronunciada com maior intensidade é a tônica. Em canto, ela está no radical: a forma é rizotônica. Em cantamos, está fora dele: arrizotônica. A classificação é da forma, não uma etiqueta única para todo o verbo.
2. Nomear, desenvolver e apresentar um resultado
Analisávamos situa o processo em um tempo e modo e o relaciona à primeira pessoa do plural: é uma forma finita. Já analisar, analisando e analisado não trazem, por si, esse conjunto completo de informações: são formas não finitas, tradicionalmente chamadas nominais. Podem conservar complementos e participar de construções com sujeito; “não finita” não significa “sem funcionamento verbal”.
Infinitivo: o processo e seu sujeito
O infinitivo nomeia o processo sem marcar, por si, tempo e modo: analisar, vender, partir, pôr. Para distinguir seus usos, observe a quem o processo é atribuído. Sujeito é o termo com o qual o verbo normalmente concorda e do qual se declara algo; não é necessariamente quem pratica uma ação.
É preciso estudar.
É preciso eu estudar.
Antes de os candidatos estudarem, a comissão publicou o aviso.
Na primeira frase, estudar tem sentido geral, sem sujeito próprio determinado: infinitivo impessoal. Na segunda, eu é sujeito de estudar: infinitivo pessoal, embora sem terminação diferente. Na terceira, os candidatos é sujeito de estudarem, e a terminação mostra o plural.
As formas pessoais são eu estudar, tu estudares, ele estudar, nós estudarmos, vós estudardes, eles estudarem. Pessoal não é sinônimo de flexionado de maneira visível: a primeira e a terceira pessoas do singular coincidem com a forma impessoal.
A flexão depende da construção, não do plural mais próximo:
- Sujeito próprio expresso antes do infinitivo: “antes de os candidatos estudarem”. Na escrita formal, preserve de os: a preposição introduz a construção de infinitivo; não transforma os candidatos em seu complemento.
- Unidade com auxiliar: “os candidatos devem estudar”. Estudar nomeia o processo principal; devem acrescenta obrigação e já recebe pessoa e número. Formam uma locução verbal, conjunto que funciona como uma unidade: não se emprega devem estudarem.
- Construção com autonomia: “os candidatos saíram para estudar/estudarem”. Ambas são admitidas; a flexão destaca o sujeito. Também há contextos como “a capacidade das pessoas de ter/terem acesso”, em que não cabe impor plural só pela proximidade de pessoas.
Mesmo sujeitos diferentes não tornam a flexão universalmente obrigatória. Com verbos de percepção ou de causação — ver, ouvir, mandar, fazer — há alternâncias como “vi os candidatos sair/saírem”. Com o pronome que substitui esse termo, a construção normativa é “vi-os sair”, não vi-os saírem. Em “o diretor autorizou os técnicos a revisarem”, a flexão evidencia quem revisa, mas não demonstra que apenas a forma flexionada seria possível.
O infinitivo também pode funcionar como substantivo: em “O estudar exige constância”, o artigo o permite tratar a atividade como um nome. É o infinitivo substantivado.
Gerúndio: observar o desenvolvimento
O gerúndio, reconhecível por -ndo, apresenta o processo em desenvolvimento ou relacionado a outro: “a equipe está analisando”; “vi o relator saindo”; “conferiu os dados comparando-os com o cadastro”. Os dois últimos exemplos mostram, respectivamente, simultaneidade e modo de realização.
O gerúndio não fixa sozinho o tempo: “amanhã, às dez horas, a equipe estará analisando o recurso” descreve atividade em curso num ponto futuro. Não há erro por ser futuro.
Gerundismo é o nome dado ao emprego desnecessário ou inadequado de cadeias como vou estar encaminhando quando se pretende apenas prometer um envio. Nesse caso, encaminharei ou vou encaminhar é mais direto. A crítica à prolixidade não autoriza condenar todo gerúndio nem toda construção futura com ele.
Particípio: forma verbal ou característica
O particípio aparece em “a comissão tinha analisado o recurso” e em “o recurso está analisado”. No primeiro, integra uma locução; no segundo, pode apresentar o estado resultante, aproximando-se de um adjetivo, palavra que caracteriza um nome. Também pode organizar uma construção como “concluída a análise, a comissão publicou o resultado”: a conclusão é anterior à publicação.
As terminações regulares são -ado e -ido; entre as irregulares estão aberto, escrito, feito, visto e posto. Com ter/haver, o particípio do tempo composto permanece invariável: “as servidoras tinham analisado as propostas”. Como característica ou em construção passiva, acompanha o nome: “propostas analisadas”; “as propostas foram analisadas”. A passiva apresenta o processo a partir de quem o recebe e será examinada adiante.
Uma oração organiza-se em torno de verbo ou locução verbal. Quando seu verbo está em forma nominal, pode ser uma oração reduzida: ao terminar a análise indica tempo; para aprimorar o serviço, finalidade. Reconhecer a forma não dispensa identificar a relação expressa pelo contexto.
3. Regularidade, lacunas e formas alternativas
Regular é o verbo que segue o paradigma de sua conjugação, como amar, vender e partir. Irregular afasta-se desse modelo no radical ou nas desinências: fazer/faço/fiz, pedir/peço, dar/dou. Uma alteração em parte do paradigma não torna todas as formas igualmente irregulares.
Os chamados anômalos apresentam alterações especialmente profundas: ser reúne sou, era, fui; ir reúne vou, ia, fui. A extensão dessa classificação varia entre gramáticas; esses dois exemplos são os mais estáveis, não necessariamente uma lista exaustiva.
Defectivo tem lacunas no paradigma adotado pela tradição normativa. Reaver, por exemplo, não se conjuga simplesmente como haver com o acréscimo de re- em todas as pessoas. “Nós reavemos os documentos” tem sujeito: lacuna no paradigma não é ausência de sujeito. Como as listas variam, não trate toda raridade de uso como proibição.
Abundante admite mais de uma forma equivalente em determinada flexão, sobretudo no particípio: aceitado/aceito, entregado/entregue, matado/morto. A orientação tradicional associa o regular a ter/haver e o irregular a ser/estar: “tinha aceitado a proposta”; “a proposta foi aceita”.
Isso não é uma fórmula sem exceções: tinha pago, tinha gasto e havia pego são usos aceitos, ao lado das formas regulares. Tampouco se cria um particípio curto por semelhança: na escrita formal, empregam-se tinha chegado e tinha trazido, não tinha chego e tinha trago.
Particípio irregular e verbo irregular não são a mesma classificação. Pedir é irregular (peço) e tem particípio regular (pedido); identificar escrito como particípio irregular descreve essa forma, não todo o comportamento de escrever.
4. O verbo e os termos que o acompanham
Em “A comissão entregou o relatório à chefia”, o sujeito é a comissão; o que se declara dele é o predicado, a parte destacada. Entregar relaciona quem entrega, o que é entregue e a quem se entrega. Os termos que completam essa relação são complementos verbais.
Compare “analisou o relatório” e “precisa de apoio”. No primeiro, o verbo não exige preposição para introduzir o complemento: objeto direto. No segundo, precisar, com sentido de necessitar, exige de: objeto indireto. Preposição é uma palavra de ligação, como de, a e com.
A transitividade descreve essa relação do verbo com seus objetos. A predicação verbal distingue também usos sem objeto e a ligação do sujeito a uma característica:
| Uso na oração | Classificação |
|---|---|
| A comissão analisou o relatório. | Verbo transitivo direto — VTD |
| A comissão precisa de apoio. | Verbo transitivo indireto — VTI |
| A comissão entregou o relatório à chefia. | Verbo transitivo direto e indireto — VTDI |
| O bebê dormiu. | Verbo intransitivo — VI: sem objeto nesse emprego |
| A servidora parece tranquila. | Verbo de ligação — VL: relaciona o sujeito a uma característica |
Em parece tranquila, tranquila é predicativo do sujeito: atributo declarado do sujeito, não objeto que recebe uma ação.
Nem tudo que acompanha um verbo é objeto. Em “dormiu durante a sessão” e “escreve bem”, os trechos acrescentam circunstâncias de tempo e modo: são adjuntos adverbiais. A preposição de durante a sessão não transforma dormir em transitivo indireto.
Classifique o emprego concreto. “Escreveu o parecer” tem objeto direto; “escreve bem” pode apresentar escrever como intransitivo. “Aspirou o ar” é diferente de “aspirou ao cargo”: muda o sentido e muda a exigência de preposição. Na construção normativa, assistiu ao julgamento significa presenciou; assistiu o paciente, prestou assistência. As demais acepções e variantes são aprofundadas em Regência verbal e nominal.
5. Quando dois ou mais verbos funcionam juntos
Em “A comissão estava analisando o recurso”, analisando fornece o processo: é o verbo principal. Estava marca o passado e ajuda a apresentar a análise em curso: é auxiliar. A locução forma uma unidade, cujo principal aparece no infinitivo, gerúndio ou particípio.
O mesmo verbo pode desempenhar outro papel: em “a servidora está tranquila”, está é de ligação e tranquila é predicativo; em “a servidora está estudando”, está é auxiliar. Auxiliar não é uma lista fixa de palavras, mas uma função na construção.
Os auxiliares acrescentam tempo, voz, desenvolvimento ou avaliação. “Tinha analisado” forma tempo composto; “vai analisar” projeta o futuro; “vem analisando” apresenta desenvolvimento ao longo do tempo. Começou a analisar, continuou a analisar e deixou de analisar focalizam início, continuidade e cessação. Essa perspectiva sobre o desenvolvimento chama-se aspecto. Algumas gramáticas chamam esses verbos de semiauxiliares, por manterem mais significado próprio que auxiliares típicos; a construção com várias palavras é uma perífrase verbal.
Deve analisar pode indicar obrigação ou probabilidade; pode analisar, possibilidade, permissão ou capacidade. Esses valores são de modalidade, a avaliação do falante sobre o processo. Há de analisar pode expressar futuro, compromisso ou expectativa. O contexto escolhe o valor: o auxiliar isolado não decide.
Uma cadeia pode combinar funções: “os relatórios vinham sendo revisados” reúne desenvolvimento progressivo e voz passiva. A marca de pessoa e número fica no primeiro auxiliar; o particípio passivo revisados concorda com relatórios. Irregularidade descreve a conjugação; auxiliaridade, o papel na frase: haver pode ser irregular e auxiliar ao mesmo tempo.
Nem toda sequência é locução: em “o servidor deseja estudar”, desejar conserva o significado de querer, e estudar pode constituir uma oração reduzida que o completa. Há dois processos relacionados, não apenas informação auxiliar sobre um deles. Como os limites da auxiliaridade variam entre gramáticas, analise a função no contexto e a terminologia exigida, não apenas a quantidade de verbos.
6. Vozes: manter o acontecimento, mudar sua apresentação
A comissão aprovou o relatório.
O relatório foi aprovado pela comissão.
Na primeira, o sujeito a comissão pratica a ação: voz ativa. Na segunda, o objeto direto da ativa, o relatório, torna-se sujeito paciente, aquele que recebe a ação: voz passiva. Quem a pratica pode aparecer como agente da passiva, em pela comissão. A voz verbal exprime essa relação entre sujeito e processo.
Na passiva analítica, usa-se auxiliar ser mais particípio. A transformação preserva tempo e modo: aprovou → foi aprovado; aprovará → será aprovado. O auxiliar concorda com o novo sujeito, e o particípio, em gênero e número: “as propostas foram aprovadas”. Trocar foi por era não é mera mudança de voz.
A descrição “sujeito pratica” explica ações como aprovar, mas não define toda construção ativa. “A candidata recebeu a notícia” tem forma ativa, embora o sujeito seja destinatário. Não deduza a voz apenas de quem sofre consequências no mundo.
A passiva com se
“Aprovaram-se os relatórios” equivale, nessa leitura, a “os relatórios foram aprovados”: é passiva sintética ou pronominal. O se é partícula apassivadora, marca dessa construção. Os relatórios já é sujeito paciente na sintética, não objeto direto; por isso, determina o plural.
Ela se forma normalmente com VTD ou VTDI. Em “concederam-se bolsas aos servidores”, bolsas é sujeito; aos servidores continua objeto indireto: “bolsas foram concedidas aos servidores”.
A passagem regular para a passiva requer um objeto direto na construção ativa que possa tornar-se sujeito. Ter objeto direto, porém, não basta: haver no sentido de existir não admite essa transformação. E “precisa de apoio” não fornece objeto direto para produzir apoio é precisado nesse sentido.
Nas locuções, mantenha toda a estrutura: “têm-se publicado relatórios” corresponde a “relatórios têm sido publicados”; o auxiliar concorda com o sujeito plural. A ausência de agente expresso não permite recuperar sua identidade: de “publicou-se o relatório” não se deduz quem o publicou.
Acontecimento passivo não é o mesmo que estado resultante
“O relatório foi aprovado” apresenta o evento; “o relatório está aprovado” focaliza o resultado. A segunda admite leitura adjetival, de estado, e não é automaticamente equivalente à primeira. “A comissão tinha aprovado o relatório” é tempo composto ativo; “o relatório tinha sido aprovado” é passiva com cadeia de auxiliares.
Há ainda infinitivo com sentido passivo sem ser: “um texto difícil de compreender” equivale, nesse ponto, a “difícil de ser compreendido”. Mas nem todo de + infinitivo é passivo: “o candidato está perto de concluir a leitura” atribui a ação ao candidato.
7. O se não tem uma função única
Compare “publicam-se relatórios” e “precisa-se de servidores”. Na primeira, relatórios são publicados: passiva, sujeito identificado e verbo no plural. Na segunda, não se informa quem precisa; de servidores continua objeto indireto. O se é índice de indeterminação do sujeito, e o verbo fica na terceira pessoa do singular.
A indeterminação também ocorre com VI (“vive-se bem aqui”) e VL (“é-se feliz aqui”). Sujeito indeterminado não significa oração sem sujeito: existe um participante não identificado; não é o caso de haver existencial, examinado a seguir.
Outras construções exigem outras leituras:
| Construção | Relação e classificação |
|---|---|
| Ela se feriu. | A ação volta ao sujeito: pronome reflexivo, equivalente a a si mesma; voz reflexiva |
| Os colegas se cumprimentaram. | A ação é mútua: pronome recíproco, equivalente a uns aos outros; valor recíproco da reflexiva |
| Ela se arrependeu. | O pronome integra arrepender-se: parte integrante do verbo, não ação sobre si mesma |
Nos verbos essencialmente pronominais, como arrepender-se, queixar-se e abster-se, o pronome acompanha o verbo nesse emprego. Nos acidentalmente pronominais, há usos com e sem ele, às vezes com construção diferente: lembrar algo e lembrar-se de algo. Não force a si mesmo sobre todo verbo acompanhado de pronome.
Também se encontra se de realce ou expletivo, como em “ele se foi”, na análise tradicional que o considera dispensável à informação básica: “ele foi”. A retirada pode perder expressividade, e a classificação varia entre gramáticas. Já em “se chover, avise”, se liga orações e introduz condição: é conjunção, não pronome ligado ao verbo.
VTD mais se não significa automaticamente passiva: ela se feriu é o contraexemplo.
8. Quando não há sujeito: verbos impessoais
“Há relatórios” não tem a mesma estrutura de “existem relatórios”. Existir tem sujeito, relatórios, e concorda com ele. Haver existencial forma oração sem sujeito: é impessoal e permanece no singular. O termo plural não é sujeito; na análise tradicional, é objeto direto de haver.
O mesmo mecanismo explica houve incidentes (haver com sentido de ocorrer), há dois anos estudo (tempo decorrido), faz dois anos e fez calor (fazer temporal ou climático). Compare ocorreram incidentes e aconteceram incidentes: esses verbos são pessoais e concordam com o sujeito.
Verbos de fenômeno natural são impessoais no sentido próprio: “choveu durante a sessão”. No figurado, podem receber sujeito: “choveram pedidos de revisão”. Não classifique o verbo sem examinar o sentido.
A impessoalidade alcança o auxiliar
Se o principal da locução é impessoal, seu auxiliar também permanece na terceira pessoa do singular: deve haver alternativas, pode fazer meses. Com principal pessoal, a concordância muda: devem existir alternativas.
Em “há de haver alternativas”, o primeiro haver é auxiliar; o segundo é existencial, principal e impessoal. A locução inteira é impessoal, e o primeiro fica no singular por essa razão. Compare os empregos pessoais: “os candidatos hão de estudar” e “os candidatos haviam estudado”.
Fora da função auxiliar, haver também pode ser pessoal: “os servidores se houveram bem” significa comportaram-se bem; “se houverem por bem adiar” significa se julgarem conveniente adiar. Portanto, não se identifica impessoalidade apenas pelo infinitivo haver.
O uso existencial de ter (“tem muita gente”) é corrente no português brasileiro; na norma-padrão, prefira “há muita gente” ou “existem muitas pessoas”. Isso não torna ter impessoal em “os servidores têm documentos”.
Duas distinções finais
Ser impessoal não exige sempre singular. Em indicações de horas e distâncias, ser apresenta concordância própria: “é uma hora”; “são duas horas”; “daqui até lá são dois quilômetros”. Não estenda a exceção a haver nem confunda esses usos com expressões de quantidade como “dois anos é pouco”, em que o total é tomado como uma unidade. As demais regras pertencem a Concordância verbal e nominal.
Unipessoal não é impessoal. Verbos como latir, no sentido próprio de voz de animal, são tradicionalmente chamados unipessoais por se empregarem sobretudo na terceira pessoa, singular ou plural: “o cão latiu”; “os cães latiram”. Há sujeito e concordância; usos figurados podem ampliar as pessoas empregadas.
Em publicam-se relatórios, relatórios é sujeito paciente; em precisa-se de relatórios, há sujeito indeterminado e objeto indireto; em há relatórios, não há sujeito. É a estrutura inteira, não o plural mais próximo nem a presença isolada de se, que explica a forma verbal.
Referências
Referências — Verbo como classe de palavras
Consultas verificadas em 5 de setembro de 2026. O capítulo trata a norma-padrão brasileira e distingue classificações tradicionais, variantes reconhecidas e recomendações editoriais. A data de consulta não cria um corte normativo nem transforma preferência de manual de redação em proibição gramatical universal.
Programa e nomenclatura
- Tribunal de Contas do Estado do Maranhão / Cebraspe. Edital número 1, de 6 de julho de 2026. Língua Portuguesa: classes de palavras e estrutura morfossintática, em articulação com tempos e modos, concordância e regência. Recorte compartilhado pelo cargo 1, Analista — Administração, e pelo cargo 16, Técnico — Técnico-Administrativa.
- Ministério da Educação e Cultura. Nomenclatura Gramatical Brasileira — Portaria número 36, de 28 de janeiro de 1959. Reprodução disponibilizada pela Universidade Federal do Paraná. Seção de morfologia, “Verbo”: conjugações, classificações, formas nominais, modos, tempos e vozes; nota sobre pôr e derivados na segunda conjugação. É referência de nomenclatura, não explicação exaustiva dos usos.
Estrutura e funcionamento verbal
- Editora Melhoramentos. Michaelis On-line. Noções gramaticais — Verbos. Estrutura das formas, conjugação, regularidade, defectividade, abundância, predicação, auxiliares e paradigmas. O capítulo desenvolve as distinções e evita tomar definições esquemáticas como regras sem contexto.
- Priberam. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Reaver e haver. Apoio lexical à defectividade de reaver e aos diferentes empregos de haver, inclusive haver-se e haver por bem. Empregam-se no capítulo apenas os usos pertinentes à norma brasileira.
Infinitivo, particípio e concordância
- Senado Federal. Manual de Comunicação. Infinitivo flexionado; De o/de ele/de este; Concordância verbal. Regras de locução, sujeito do infinitivo, separação da preposição e concordância. As orientações são editoriais: a própria página do infinitivo reconhece variação; suas simplificações não substituem a análise de cada construção.
- Escola Fazendária do Paraná. Dicas de Português, trechos sobre infinitivo pessoal e impessoal e “O particípio verbal — entregue ou entregado?” (17 de setembro de 2015). Apoio às alternâncias com verbos de percepção e causação, ao infinitivo acompanhado de pronome e ao par entregado/entregue; não se estendem ao capítulo juízos gerais de outras dicas da página.
- Senado Federal. Manual de Comunicação. Particípios duplos. Orientação tradicional de combinação com auxiliares, formas aceitas como pago, gasto e pego com ter/haver, e distinção entre chegado/trazido e os usos inadequados de chego/trago como particípios na escrita formal.
- Mourato, Sara. Completiva de infinitivo vs. a construção “ser fácil de”. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 22 de novembro de 2024. Análise da construção de valor passivo com adjetivo e de + infinitivo, distinguindo-a de outras estruturas com infinitivo.
Desenvolvimento do processo e gerúndio
- Silva, Ana Rosa da. Português — Gerúndio e gerundismo. Plano de aula autoral, UOL Educação, seção “Estratégias”. Apoio didático aos valores de duração, simultaneidade e desenvolvimento, inclusive com referência futura. Não se adota como fato comprovado a hipótese de origem do gerundismo apresentada na seção “Comentário”.