8. Pensamento lateral e vertical
Em uma oficina hipotética, participantes perdem tempo procurando fichas de atividades. Uma pessoa mantém a organização por ordem alfabética, identifica onde a busca demora e aperfeiçoa cada etapa. Outra pergunta: “Precisamos procurar cada ficha no momento da atividade? Poderíamos preparar conjuntos antes ou organizar o acesso por atividade?” A primeira desenvolve um caminho já definido; a segunda procura modificar a forma de tratar o problema. Depois, as propostas terão de ser examinadas.
Esse contraste ajuda a entender os nomes pensamento vertical e pensamento lateral na proposta de Edward de Bono. O autor os discutiu em artigo de 1969. São modos de trabalhar uma questão: uma mesma pessoa pode empregá-los em momentos diferentes.
1. Desenvolver um caminho ou procurar outros
No pensamento vertical, o raciocínio avança por passos encadeados: cada passo precisa de uma justificativa que permita chegar ao seguinte. O problema e os critérios orientam a seleção e o desenvolvimento de um caminho. Conferir cálculos, aplicar uma regra e examinar se uma conclusão decorre de seus pontos de partida, as premissas, são exemplos desse trabalho analítico.
No pensamento lateral, o esforço se dirige a produzir alternativas e modificar os conceitos ou a maneira de perceber a situação. Em vez de apenas melhorar a resposta à pergunta inicial, pode-se reformular a própria pergunta. Há uma busca deliberada por perspectivas que o caminho habitual deixou de fora.
Na oficina, “como acelerar a busca alfabética?” mantém o foco na busca. “Como disponibilizar as fichas sem repetir tantas buscas?” abre outras formas de atingir o objetivo. As duas perguntas podem ser úteis, mas orientam operações diferentes.
Ter várias opções não basta para caracterizar pensamento lateral. Comparar alternativas já fornecidas por um enunciado, segundo critérios fixos, pode ser um trabalho vertical. A distinção depende do que se faz com o problema, e não apenas do número de respostas ou da rapidez da pessoa.
2. Por que o encadeamento importa
Considere outro exemplo hipotético. Para guardar um conjunto indivisível de 20 fichas, deve-se escolher uma única caixa com capacidade suficiente e preço de até 15 reais. A caixa A comporta 24 fichas e custa 12 reais; a B comporta 16 e custa 9 reais.
O encadeamento é:
- A capacidade mínima é de 20 fichas.
- B não atende a esse requisito, embora seja mais barata.
- A atende à capacidade e ao limite de preço.
- Entre as duas caixas dadas, A é admissível.
Cada passo usa os dados e as condições do problema. Aplicar dois critérios ou recalcular um valor pode exigir cuidado, mas não constitui, por si só, mudança de perspectiva.
Esse rigor tem uma condição: as premissas também precisam ser examinadas. Se a informação sobre a capacidade estiver errada, uma sequência bem encadeada não corrige esse dado automaticamente. Coerência do raciocínio e correspondência dos dados com a realidade são exigências distintas.
O pensamento vertical não exige manter um erro. É possível localizar uma falha, voltar a uma etapa e refazer a análise. Tampouco se limita a escolher sempre a alternativa conhecida: ele pode avaliar uma proposta recém-criada.
3. Como abrir alternativas
Um pressuposto é algo tomado como ponto de partida, muitas vezes sem ser explicitado. Na oficina, “as fichas devem ser procuradas individualmente durante a atividade” pode ser apenas uma convenção organizacional. Tornar esse pressuposto visível permite perguntar se ele é necessário.
A apresentação das ferramentas de de Bono inclui redefinição do foco, questionamento construtivo e busca de alternativas. Também se pode usar um estímulo sem relação inicial necessária com o problema para tentar estabelecer novas conexões: essa é a entrada aleatória. Introduzir deliberadamente uma ideia incomum para explorar o que se pode desenvolver a partir dela constitui uma provocação.
Para entender o funcionamento dessas operações, acompanhe estas aplicações autorais e hipotéticas:
| Operação | O que muda na oficina |
|---|---|
| Redefinir o foco | Trocar “buscar mais depressa” por “reduzir a necessidade de buscar”. |
| Questionar um pressuposto | Perguntar por que a única organização permitida seria a alfabética. |
| Procurar alternativas | Explorar organização por atividade, preparação de conjuntos ou outro modo de acesso, sem eleger imediatamente uma solução. |
| Usar uma entrada aleatória | Empregar a palavra “ponte”, escolhida ao acaso, como estímulo para imaginar conexões entre atividades e locais de acesso. A palavra inspira uma associação; não prova sua utilidade. |
| Usar uma provocação | Imaginar “nenhuma ficha é procurada” e extrair dessa ideia uma possibilidade examinável: conjuntos disponíveis antes de cada atividade. |
Não basta declarar algo estranho: é preciso procurar uma ligação que leve a uma alternativa compreensível.
Na última linha, ninguém demonstrou que buscas são sempre dispensáveis. A frase funciona como ponto de partida exploratório, não como descrição de um fato. Uma proposta eventualmente aproveitável ainda dependerá das condições da oficina.
Questionar uma convenção também não elimina uma restrição real. Se o exercício exige conservar todas as fichas acessíveis e identificadas, uma proposta que descarte fichas não atende ao objetivo. Pode-se discutir se uma condição está bem formulada; não se pode tratá-la silenciosamente como inexistente.
4. Gerar não é comprovar
Na exploração, a rejeição imediata de toda proposta incomum pode fechar possibilidades cedo demais. Admitir uma ideia para examiná-la, porém, não significa aceitá-la como verdadeira, viável ou segura.
Na oficina, organizar por atividade pode diminuir algumas buscas e aumentar outras. Preparar conjuntos pode ocupar mais espaço. São consequências possíveis do exemplo, não resultados observados. Antes de adotar a proposta, seria necessário verificar demanda, identificação das fichas, espaço e tempo de preparação. A novidade não substitui essa avaliação.
Os dois modos podem se complementar:
- Explicitar o problema e suas condições.
- Explorar outras maneiras de atingir o objetivo.
- Desenvolver as propostas e examinar suas consequências com dados e critérios.
- Retomar a formulação do problema se as alternativas não atenderem às condições.
Esse roteiro mostra uma combinação possível, não uma ordem universal obrigatória. Pode haver novas alternativas durante a análise, e uma análise pode indicar que a pergunta inicial precisava mudar.
5. O alcance da comparação
| Questão principal | Ênfase vertical | Ênfase lateral |
|---|---|---|
| Como trabalhar? | Justificar e encadear passos. | Abrir alternativas e mudar a perspectiva. |
| Como tratar um caminho? | Desenvolvê-lo e avaliar sua sustentação. | Procurar outros caminhos ou reformular o foco. |
| O que falta ao resultado? | Conferir premissas e critérios. | Avaliar as ideias geradas; novidade não comprova acerto. |
A proposta de de Bono é uma referência conceitual e metodológica. As páginas de divulgação consultadas também anunciam benefícios, mas esses anúncios não bastam para demonstrar que a técnica melhora qualquer decisão. Os exemplos desta aula explicam operações; não são experimentos de eficácia.
Também não se deve dividir cientificamente as pessoas em “laterais” e “verticais”, como identidades fixas. A comparação aqui descreve o trabalho realizado em uma situação. Em uma questão, procure o verbo e a finalidade: encadear e avaliar segundo condições ou produzir alternativas e alterar a perspectiva. Depois verifique se o enunciado confundiu ideia nova com ideia comprovada.
Referências
Programa e recorte
- Cebraspe. Perícia Oficial de Natureza Criminal do Maranhão, Edital nº 1, de 17/07/2026, consolidado até a retificação de 29/09/2026: documento oficial, página 60, Raciocínio Lógico e Científico, 7 — Pensamento lateral e vertical. Trecho consultado em cópia local conferida em 04/10/2026. O tópico “Fundamentos de eclética” permanece fora desta unidade.
Fontes conceituais consultadas
- De Bono, Edward. Information Processing and New Ideas — Lateral and Vertical Thinking. The Journal of Creative Behavior, volume 3, número 3, páginas 159–171, verão de 1969. Página da editora. Consulta em 04/10/2026 aos metadados e ao resumo: autoria e contraste entre desenvolvimento sequencial de um caminho e procura de outro. O artigo integral não estava acessível; não se declara leitura das páginas ou dos livros citados em sua bibliografia.
- De Bono Group. Reading on Lateral Thinking. Texto público consultado em 04/10/2026, especialmente notas expressamente atribuídas a Edward de Bono sobre mudança de conceitos/percepções, criatividade deliberada e uso de ferramentas. O rodapé identifica copyright de 1999, The McQuaig Group. As afirmações de benefícios não são tratadas como demonstração experimental independente.
- De Bono Group. Lateral Thinking. Página sem data editorial declarada, consultada em 04/10/2026: seções Focus, Challenge, Alternatives, Random Entry, Provocation e complementaridade com análise. Sustenta a identificação das operações; os cenários da aula e do banco são autorais, não reproduções dos exercícios do curso.
- Organização de Bono. Thinking as a skill, apresentação institucional e seção Lateral Thinking; How it works, apresentação pública do site administrado pela organização. Consultadas em 04/10/2026 para autoria, abordagem estruturada e geração de alternativas. Nenhum curso, cadastro ou conteúdo pago foi acessado.
Questões e alcance
Banco integralmente autoral, elaborado para este recorte. Não se atribuem questões a banca ou prova anterior sem caderno e chave oficiais verificados. Exemplos e consequências são hipotéticos; a unidade não certifica eficácia geral das técnicas nem estabelece tipos científicos de pessoas.