16. Colocação pronominal

Próclise, ênclise e mesóclise de pronomes átonos em formas simples, futuros, formas nominais e locuções verbais.

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Colocação pronominal

1. A posição muda quando a estrutura muda

Compare duas frases hipotéticas:

  • Entregaram-me o relatório.
  • Não me entregaram o relatório.

O pronome me continua ligado ao verbo entregar. O que muda é a estrutura da oração: na segunda frase, a palavra negativa não atrai o pronome para antes do verbo. Esse é o núcleo da colocação pronominal: decidir onde o pronome ligado ao verbo pode ou deve ficar em relação a ele.

Em entregaram a mim, mim tem pronúncia independente e vem com preposição: é uma forma tônica. Em entregaram-me, me se apoia na pronúncia do verbo: é átono. A distinção é sonora, não depende de acento gráfico; a decisão de posição aqui estudada diz respeito às formas átonas.

Os pronomes pessoais oblíquos átonos mais frequentes são me, te, se, o, a, os, as, lhe, lhes, nos e vos. Eles também exercem funções sintáticas, mas função e posição são perguntas diferentes. Em Entregaram-me o relatório, por exemplo, me representa o destinatário; a posição pós-verbal não cria essa função. A regência é aprofundada em Regência verbal e nominal.

Quando o pronome átono se apoia fonologicamente no verbo, ele é chamado de clítico. A análise de prova deve localizar o verbo e a oração antes de procurar uma regra de posição.

2. Três posições: antes, depois ou no interior do futuro

PosiçãoNomeExemplo hipotéticoGrafia
antes do verboprócliseNão me disseram a causa.sem hífen
depois do verboêncliseDisseram-me a causa.com hífen
no interior do futuromesócliseDir-me-ão a causa.com dois hífens

A mesóclise pertence aos futuros do presente e do pretérito na tradição normativa: dir-me-ão, informar-lhe-ia. Ela não é uma posição disponível em qualquer tempo verbal.

A regra mais produtiva é esta:

  1. procure um fator que justifique próclise na mesma oração;
  2. se não houver, classifique a forma verbal;
  3. só então decida entre ênclise e, nos futuros simples, mesóclise.

3. Próclise: o atrator precisa atuar sobre o verbo analisado

Chamaremos de atrator o elemento que leva o pronome átono para antes do verbo no padrão formal cobrado em prova.

Negação

Palavras e expressões negativas são fatores fortes:

  • Não me informaram o resultado.
  • Nunca se discutiu o ponto.
  • Ninguém lhe explicou a mudança.

A negativa deve pertencer à estrutura que contém o verbo. Em Não creio que o diretor se manifeste, a posição de se na oração subordinada não é explicada pela palavra não da oração principal; a própria subordinação introduzida por que já fornece o contexto de próclise.

Subordinação e relativos

Conjunções subordinativas, conjunções integrantes e pronomes relativos criam contextos típicos de próclise:

  • o relatório que me enviaram;
  • disseram que se reuniriam depois;
  • quando lhe perguntaram, respondeu;
  • embora se conheçam os riscos, o procedimento continua.

O ponto decisivo é o escopo: um atrator não atravessa automaticamente fronteiras de oração para governar todo o período.

Interrogativas, exclamativas e optativas

Elementos interrogativos e construções exclamativas ou optativas também podem exigir ou favorecer a anteposição:

  • Quem lhe entregou a cópia?
  • Como se chegou a essa conclusão?
  • Que a sorte nos acompanhe.

Também podem favorecer próclise indefinidos que não identificam precisamente alguém ou alguma quantidade (Alguém lhe comunicou), demonstrativos neutros que retomam uma situação (Isso me preocupa) e pares alternativos (Ou se aprova a proposta, ou se apresenta outra). Não transforme um ou isolado em atrator obrigatório nem faça uma palavra posterior atrair o pronome retroativamente.

Em questão de reescrita, não olhe apenas para a palavra imediatamente anterior ao verbo; delimite a oração e recupere a relação sintática.

4. Advérbio, pausa e inciso: proximidade não basta

Um advérbio sem pausa pode favorecer a próclise:

  • Hoje se divulgará o resultado.

Na orientação conservadora registrada por manuais, a pausa pode alterar a análise:

  • Hoje, divulgar-se-á o resultado.

A vírgula, porém, não apaga mecanicamente todo fator de próclise. Em uma estrutura como Nunca, segundo os autos, lhe comunicaram a decisão, o inciso não transforma a negativa em elemento neutro.

Por isso, a estratégia segura é retirar mentalmente o inciso e reconstruir a frase-base. O que importa é a relação do possível atrator com o verbo, não a distância gráfica entre eles.

5. Sem atrator inequívoco: início de oração, sujeito e coordenação

Na norma tradicional estrita, evita-se iniciar oração com pronome átono. Assim, em item prescritivo, Entregaram-me os documentos é solução segura, enquanto Me entregaram os documentos pode ser rejeitada, embora seja corrente no português brasileiro.

O simples sujeito anteposto não funciona como atrator absoluto. Compare construções documentadas como:

  • A comissão manifestou-se.
  • A comissão se manifestou.

A prova pode distinguir a orientação normativa conservadora do uso brasileiro contemporâneo. Leia o comando antes de transformar variação de uso em proibição absoluta.

Conjunções coordenativas como e e mas também não equivalem, por si sós, a um atrator forte. Em analisou o processo e encaminhou-o ao setor, a ênclise do segundo verbo é possível. Se houver negativa ou estrutura correlativa relevante, a análise muda: não analisou o processo nem o encaminhou.

6. Futuro: primeiro procure atrator; depois pense em mesóclise

Nos futuros simples, a orientação tradicional contrasta dois cenários.

Há fator de próclise

  • Nunca lhe comunicarei a decisão.
  • Quando lhe comunicarão o resultado?

O atrator leva o pronome para antes do futuro; a mesóclise deixa de ser a solução.

Não há fator de próclise

  • Comunicar-lhe-ei a decisão.
  • Dir-se-ia que o problema terminou.

Nesse recorte conservador, não se usa a ênclise simples ao futuro como se fosse um pretérito: a forma esperada é comunicar-lhe-ei, não comunicarei-lhe. O manual da FUNAG também registra próclise quando um pronome pessoal usado como sujeito, como eu, antecede o futuro: Eu lhe comunicarei. Assim, a mesóclise não é a única saída em toda frase sem negativa.

Na redação contemporânea, a mesóclise pode soar marcada. Isso não a torna incorreta. Quando o objetivo é escrever com naturalidade sem enfrentar essa estrutura, uma reformulação pode ser melhor: Vou comunicar-lhe a decisão.

7. Imperativo: a negativa muda o lado do pronome

Sem outro fator de atração, o imperativo afirmativo favorece a ênclise:

  • Informe-nos o horário.
  • Entregue-me a cópia.

No imperativo negativo, a própria negativa exige próclise:

  • Não nos informe o horário ainda.
  • Não me entregue a cópia incompleta.

Esse contraste é frequente porque a mudança de afirmativo para negativo altera simultaneamente a estrutura e a posição do pronome.

8. Formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio não se comportam do mesmo modo

Forma nominal é o nome dado ao infinitivo, ao gerúndio e ao particípio. A posição do pronome varia entre elas.

Infinitivo

O infinitivo admite variação em vários contextos. Com negativa, não o prejudicar é uma solução inequívoca de próclise. Sem fator forte, a ênclise é muito comum: informá-lo, ajudá-la.

Uma preposição antes do infinitivo, isoladamente, não deve ser tratada como regra universal que fixa uma única posição. Compare construções registradas como para o ajudar e para ajudá-lo; mesmo com negativa, são possíveis para não o prejudicar e para não prejudicá-lo. Essa liberdade do infinitivo não autoriza não prejudicou-o com verbo flexionado.

Gerúndio

Sem atrator, a ênclise é solução regular:

  • continuou examinando-o.

Com negativa, ocorre próclise:

  • não o encontrando, avisou a chefia.

A construção em + gerúndio é caso tradicional de próclise:

  • Em se tratando de prazo, confira o edital.

Particípio

O particípio não recebe o pronome depois de si em uma locução. Portanto:

  • tinha-lhe comunicado a decisão;
  • não lhe tinha comunicado a decisão;
  • não: tinha comunicado-lhe a decisão.

A proibição é do pronome depois do particípio; em cadeias verbais, outras posições podem ser possíveis junto aos auxiliares.

9. Locuções verbais: analise a cadeia, não apenas o último verbo

Uma locução verbal reúne um auxiliar e uma forma nominal do verbo principal. A colocação do clítico pode oferecer mais de uma possibilidade, e a tradição normativa não reduz todos os casos a uma única fórmula.

Auxiliar + infinitivo ou gerúndio

Sem atrator, são registradas construções como:

  • deve-se informar o resultado;
  • deve informar-se sobre o resultado.

Com fator de próclise, a posição antes do auxiliar é solução segura:

  • não se deve divulgar o dado;
  • ninguém o poderia impedir.

Há também contextos em que a tradição e decisões de banca admitem o clítico ligado ao infinitivo apesar de um fator antes do auxiliar, como em ninguém poderia impedi-lo. Por isso, em locuções, evite a regra falsa “qualquer atrator obriga o pronome a ficar antes de toda a cadeia”.

Auxiliar + particípio

O limite é mais rígido: não se coloca o clítico depois do particípio.

  • havia-lhe comunicado a decisão;
  • não lhe havia comunicado a decisão;
  • não: havia comunicado-lhe.

Posição entre os verbos no português brasileiro

Construções como a comissão deve se manifestar são produtivas no português brasileiro. Manuais de orientação formal conservadora podem preferir deve-se manifestar ou deve manifestar-se. Em prova, a resposta depende do comando: descrição de uso, adequação a registro ou prescrição estrita não são a mesma pergunta.

10. A posição pode alterar a grafia de o, a, os, as

Depois de formas terminadas em r, s ou z, essas consoantes finais são suprimidas e o, a, os, as assumem lo, la, los, las:

  • fazer + o → fazê-lo;
  • pôs + a → pô-la;
  • fiz + o → fi-lo.

A acentuação é ajustada à forma resultante.

Depois de terminação nasal, surgem no, na, nos, nas:

  • fizeram + o → fizeram-no;
  • põem + os → põem-nos.

Não confunda esse nos, variante de os depois de som nasal, com o pronome de primeira pessoa do plural: o referente resolve a ambiguidade. Em outro encontro, -mos + nos perde o s final do verbo: preparamos + nos → preparamo-nos. Com os retomando algo masculino plural, a forma é preparamo-los.

Na próclise não há hífen: não o fizeram. Na ênclise e na mesóclise, o hífen integra a grafia: fizeram-no, far-se-á.

11. Um método de prova que evita regras soltas

Diante de uma frase ou reescrita, siga esta ordem:

  1. delimite a oração do verbo analisado;
  2. identifique o pronome átono e seu referente;
  3. procure fator de próclise que realmente atue nessa oração;
  4. classifique a forma verbal: tempo simples, futuro, infinitivo, gerúndio, particípio ou locução;
  5. escolha a posição admitida naquele contexto;
  6. revise a grafia: hífen, mesóclise e variantes lo/la/no/na;
  7. confira função, regência, concordância e sentido se a questão envolver reescrita.

A última etapa é uma ponte para Reorganização de orações e períodos. Aqui, o foco é a posição do pronome; uma reescrita não se torna correta só porque a colocação, isoladamente, parece possível.

12. Pegadinhas de alta frequência

Atalho erradoCorreção
“qualquer palavra antes do verbo atrai”o fator precisa ter relação sintática com o verbo na oração pertinente
“vírgula sempre cancela próclise”pausa pode mudar certos casos adverbiais, mas não neutraliza mecanicamente negativa, relativo ou subordinativa
“sujeito antes do verbo exige próclise”sujeito anteposto não é atrator absoluto
“futuro aceita ênclise simples”na orientação tradicional, sem atrator usa-se mesóclise; com atrator, próclise
“particípio recebe ênclise”pronome não fica depois do particípio em locução
“em locução, o atrator fixa uma única posição em todos os casos”locuções com infinitivo ou gerúndio têm zonas de variação; analise a estrutura e o comando
“mover o pronome preserva automaticamente a frase”revalide referente, função, regência, concordância, grafia e sentido

A melhor estratégia não é decorar uma lista interminável de posições. É reconhecer a oração, o fator de atração e a forma verbal antes de decidir onde o pronome pode aparecer.

Referências

Referências — Colocação pronominal

Recorte e proveniência

Fontes primárias reconsultadas em 26 de setembro de 2026. Esta unidade cobre o item 5.8 — Colocação dos pronomes átonos de Língua Portuguesa do Cargo 1 — Inspetor de Polícia Penal.

  • SECRETARIA DE ESTADO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA DO MARANHÃO; CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — SEAP/MA — Inspetor e Monitor, de 21 de julho de 2026. Item 22.2.3, Língua Portuguesa, item 5.8: “Colocação dos pronomes átonos”. Documento oficial. Programa reconferido textual e visualmente; SEAP-F03 mantém a reconsulta global de atos posteriores.
  • A consolidação SEAP-P01 já incorpora o Edital nº 2, de 24/09/2026, sem alteração programática registrada para este recorte.

Norma formal, grafia e variação de uso

Questões anteriores revalidadas

As três questões locais são adaptações breves e não literais.

Questão localProva originalFenômenoGabarito
q3719Fundação Getulio Vargas — Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Técnico em Farmácia, Tipo 1, 2025, questão 8ênclise regular e próclises exigidasB
q3720Fundação Getulio Vargas — Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu, Auditor Fiscal do Tesouro Municipal, Tipo 1, 2024, questão 2em + gerúndio → prócliseD
q3727Cebraspe — Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul, Auditor de Controle Externo, Área Tecnologia da Informação, caderno CG4, 2025, questão 12negativa, próclise e concordância em locuçãoC

Fontes primárias:

Proveniência, adequação integral e fronteiras

  • Unidade e destino: SEAP-U016, identidade seap-u016, ordem 16, destino src/content/assuntos/seap-ma-2026-inspetor-policia-penal/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/colocacao-pronominal/.
  • Origem imediata: pacote físico/local da PC-MA em src/content/assuntos/pc-ma-2026-oficial-investigador/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/colocacao-pronominal/, sem vinculo.json. Blobs auditados: C 931f2108b0737543816b92b5a4adca4e55a1919d, H 35c0158b29ee53bd581471dbff399ff7255405f1, Q 099ed06c2040b30da076e382edde2e431577ddfb, R 5a169eaa9c1ff6ddf8eb1f64eb79e0ab55216b5a.
  • Histórico comparativo: o pacote físico resulta de reaproveitamento parcial do canônico src/content/biblioteca/lingua-portuguesa/colocacao-pronominal/, atualmente nos blobs C b0898bb7f9aa7d7b8e59bdc871d01a0eec921ba0, H 6a983f557b61cb4cfc654d2a511f99fb74d05f2b, Q 14a409d2025a1e5a6305b3bf68b29d282f32e551, R 94138447136e3eac5c6f517e50ca0cfffff0ccb2; os dois vínculos TCE-MA permanecem somente leitura.
  • Classificação SEAP-R02: integral/local em relação ao pacote físico PC-MA. As dependências U006–U009 estão done; o item 5.8 coincide integralmente com o recorte local.
  • Revisão pedagógica: C/H foram lidos integralmente. A aula começa pela relação entre posição e estrutura, ensina formas átonas e próclise/ênclise/mesóclise, delimita atratores por oração e escopo, distingue futuro, imperativo e formas nominais, trata locuções sem impor falsa regra única e fecha com grafia e método de prova. Prescrição conservadora e uso brasileiro são explicitamente separados. Não houve ganho proporcional em ampliar ou reorganizar C/H.
  • Adaptação material: C muda só storageId: pc-u016 → storageId: seap-u016; H permanece byte a byte idêntico. Q mantém 24 questões, 21 autorais + 3 anteriores; somente microglossário de proveniência é ajustado em q3719, q3720, q3727, revisão 2→3 e questionSetRevision 5→6. Enunciados, alternativas, gabaritos e origin não mudam; não há resoluções separadas.
  • Corte: matéria gramatical, sem corte legislativo/jurisprudencial material. Origem PC-MA, biblioteca, consumidores, schemas, catálogo e grupos não são alterados.
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