15. Crase

Emprego do acento grave a partir da regência, do artigo, de demonstrativos, relativos, locuções, horários e reescritas.

Ler sem distrações

Crase

1. Antes do acento, descubra o que está se encontrando

Compare duas frases hipotéticas:

  • a equipe analisou a proposta;
  • a equipe se referiu à proposta.

A palavra proposta continua feminina, mas a ligação mudou. Analisar recebe seu complemento diretamente: o a de a proposta é apenas artigo. Já referir-se seleciona a preposição a; como proposta admite o artigo a, ocorre o encontro a + a = à.

Esse encontro é a crase. O acento grave é a marca gráfica usada para representá-la nesses casos. No plural, a + as = às. Portanto, o gênero feminino é apenas parte do problema: a pergunta decisiva é há preposição a e há outro a com que ela possa se fundir?

A preposição vem da regência do termo anterior ou de outra construção que introduza a. O segundo elemento pode ser o artigo a/as ou o início de certos demonstrativos, como aquele. Regência verbal e nominal aprofunda quais verbos e nomes selecionam preposição; aqui, usamos essa informação para decidir a crase.

O teste do masculino confirma a estrutura

Quando a troca conserva sentido e função, substitua o nome feminino por um masculino equivalente:

FemininoMasculino equivalenteDiagnóstico
analisou a propostaanalisou o projetosó artigo
referiu-se à propostareferiu-se ao projetopreposição + artigo
referiu-se a uma propostareferiu-se a um projetopreposição sem artigo definido

Se aparece ao/aos, a estrutura feminina tende a ser à/às. O teste não cria regência: trocar também o verbo, a função ou a determinação do nome pode produzir um falso resultado.

2. Quando a crase básica não pode ocorrer

Falta o artigo

Em referiu-se a propostas, há preposição, mas não artigo. Em referiu-se às propostas do relatório, há preposição e artigo plural. As duas formas podem ser corretas, mas não têm necessariamente a mesma determinação.

Também não há fusão em a uma proposta, pois uma é artigo indefinido. O mesmo raciocínio vale para a futuras servidoras, a outras medidas e a duas unidades quando o artigo definido não está presente.

Evite dois atalhos ruins:

  • à propostas não combina singular e plural corretamente;
  • retirar apenas o acento de às propostas produz as propostas e pode eliminar a preposição exigida pelo regente.

Pronomes que não admitem artigo nesse emprego

Em construções como a mim, a você, a ela, a nós, a esta norma, a essa regra, a qualquer pessoa, a cada unidade, há preposição, mas não artigo feminino. Por isso, não há crase.

A regra não é “antes de pronome nunca há crase”. Compare à mesma norma, à própria interessada, à outra unidade e, sobretudo, àquele parecer, estudado adiante.

Formas de tratamento como Vossa Excelência não recebem artigo: dirigiu-se a Vossa Excelência. Já senhora pode admiti-lo: dirigiu-se à senhora responsável.

Infinitivo, masculino e repetição

Não há artigo feminino antes de infinitivo: começou a analisar, voltou a estudar, passou a integrar. Também não há crase em a prazo, a lápis, a cavalo, a respeito de, a partir de.

Expressões repetidas como cara a cara, frente a frente, gota a gota, passo a passo não recebem acento apenas porque um dos termos seja feminino.

E atenção: em “recebeu a proposta e a examinou”, o segundo a é pronome que retoma proposta, não artigo nem preposição. Colocação pronominal trata da posição dos pronomes átonos; aqui basta não confundir as funções.

3. Facultativo significa duas estruturas possíveis

O acento grave só é facultativo quando a própria construção admite duas análises normativas, não quando se escolhe apagar um acento obrigatório.

Possessivo feminino diante de nome expresso

Antes de possessivo feminino que acompanha um substantivo, o artigo pode aparecer ou não:

  • referiu-se a sua proposta;
  • referiu-se à sua proposta.

A preposição permanece nas duas. No plural: a suas propostas / às suas propostas.

Quando o possessivo substitui um nome omitido, a análise muda: “Sua proposta é semelhante à minha” recupera à minha proposta. O masculino confirma: semelhante ao meu.

Nome próprio feminino

Nomes de pessoas podem aparecer com ou sem artigo conforme o uso: entregou o relatório a Ana / à Ana. Se houver uma expressão que individualize o nome com artigo, a construção pode exigir a fusão: referiu-se à Ana que coordenou o projeto.

Depois de até

Para limite, admitem-se até a sala e até à sala; analogamente, até as três horas e até às três horas. A alternância decorre de até poder aparecer sozinho ou acompanhado de a. Ela não se estende automaticamente a desde, entre, após, para ou perante.

4. Demonstrativos, relativos e nomes omitidos

Àquele, àquela, àquilo

Em referiu-se àquele processo, não há artigo feminino. A preposição a se funde ao início de aquele: a + aquele = àquele. O mesmo mecanismo produz àqueles, àquela, àquelas, àquilo.

Sem preposição, não há acento: aquele processo foi arquivado.

A que, à qual, a quem e a cujo

Com pronome relativo, reconstrua a frase simples:

  • referiu-se à proposta → a proposta a que se referiu;
  • referiu-se à proposta → a proposta à qual se referiu;
  • entregou o ofício à servidora → a servidora a quem entregou o ofício;
  • fez referência ao texto da autora → a autora a cujo texto fez referência.

O relativo simples que e quem não trazem artigo; a qual traz quando é pronome relativo composto com artigo. Isso não vale para toda sequência a qual. Em A qual unidade o relatório se refere?, qual é interrogativo: há apenas a preposição exigida por referir-se, sem artigo, portanto a qual fica sem acento. Cujo também não aceita artigo imediatamente antes nem depois: não escreva à cujo texto nem a cujo o texto.

Quando “à que” pode estar correto

Compare:

  • “a proposta a que me referi”: há preposição + relativo que;
  • “a proposta é semelhante à que foi aprovada”: à que equivale a àquela que.

No segundo caso, o à representa um elemento demonstrativo com um nome feminino recuperável. O masculino ajuda: o projeto é semelhante ao que foi aprovado.

O mesmo raciocínio vale em regra idêntica à prevista, decisão semelhante à da comissão, normas superiores às anteriores. Há elipse do nome, e a relação continua recuperável.

5. Lugares, casa e terra

Nomes próprios de lugar, ou topônimos, variam quanto ao artigo. O teste voltar da/de ajuda:

  • foi à Bahia / voltou da Bahia;
  • foi a Brasília / voltou de Brasília.

A presença de modificador pode alterar o artigo: a Roma pode contrastar com à Roma das Sete Colinas; a Brasília, com à Brasília de sua juventude.

Com casa e terra, não memorize proibições absolutas:

  • voltou a casa = ao próprio lar, sem especificação;
  • voltou à casa dos pais = nome determinado;
  • marinheiros chegaram a terra = terra firme, em oposição a bordo;
  • voltou à terra natal / referência à Terra = expressão determinada ou planeta.

Ainda é necessária a preposição: visitou a casa dos pais continua sem crase porque visitar é direto nesse emprego.

6. Locuções: reconheça o conjunto

Muitas locuções femininas têm acento grave consagrado:

  • tempo, modo e lugar: à tarde, à noite, às vezes, às pressas, à vontade, à direita;
  • prepositivas: à espera de, à procura de, à custa de, à frente de, à margem de;
  • conjuntivas: à medida que, à proporção que.

A função importa. À medida que expressa proporção; na medida em que costuma introduzir causa, justificativa ou delimitação. No padrão formal, evite cruzamentos como à medida em que.

Moda, maneira e instrumento

Em bife à milanesa ou gol à Pelé, recupera-se à moda/à maneira de. A palavra feminina pode estar subentendida; não é o nome masculino seguinte que “autoriza” o acento.

Também são registradas locuções como à mão, à máquina, à vista, à bala. O teste masculino não resolve sozinho esses casos: à mão convive com a lápis. Aprenda a expressão e seu sentido, sem generalizar que todo instrumento feminino recebe acento.

A distância / à distância

Há variação de análise e preferência editorial. O Manual de Comunicação do Senado admite as duas grafias em certos contextos e adota à distância como padrão institucional. Já em “mediu a distância entre as mesas”, a distância é objeto direto e contém apenas artigo. Em prova, observe a construção e a orientação explicitada pela fonte ou pelo comando.

7. Horário não é tempo decorrido

Compare:

FormaSentidoExemplo
hátempo já decorridoterminou há duas horas
aintervalo futurocomeçará daqui a duas horas
à/àshora determinadacomeçará às duas horas

Escreva à uma hora, à zero hora, à meia-noite, às oito horas; compare ao meio-dia. Já a uma hora de viagem mede intervalo, não horário. E em a uma hora qualquer, uma funciona como artigo indefinido de um horário não determinado, não como a indicação da hora exata uma hora; por isso não se aplica automaticamente a forma à uma hora.

Quando outra preposição já aparece, não acrescente a: desde as oito, após as oito, para as oito, entre as oito e as dez.

Nos intervalos, preserve o paralelismo:

  • das oito às dez horas;
  • de oito a dez horas.

Misturar de oito às dez ou das oito a dez rompe o tratamento paralelo dos extremos.

8. Reescrita: refaça a análise, não carregue o acento

Uma alteração aparentemente pequena pode retirar a preposição, o artigo ou ambos:

  • referiu-se à proposta → mencionou a proposta: mudou o verbo e saiu a preposição;
  • limitou-se à análise → limitou-se a analisar: a preposição ficou, o artigo saiu diante do infinitivo;
  • referiu-se àquela proposta → referiu-se a esta proposta: mudou o demonstrativo;
  • a proposta a que se referiu → a proposta à qual se referiu: a relação é a mesma, mas o relativo mudou.

Em prova, separe duas perguntas: a nova forma é gramatical? ela preserva o sentido e a determinação da original? “A outras medidas” e “às outras medidas” podem ser corretas em contextos diferentes, sem serem equivalentes.

Método de decisão

  1. localize o termo que introduz a relação;
  2. confirme se existe preposição a;
  3. verifique artigo, demonstrativo, relativo ou termo omitido;
  4. use o masculino como confirmação quando a troca for fiel;
  5. reconheça locuções e horários;
  6. em reescrita, refaça a estrutura inteira.

O objetivo não é decorar uma lista de “pode/não pode”. É identificar quais elementos realmente ocupam o ponto em que o acento grave aparece.

Referências

Referências — Crase

Recorte e proveniência

Fontes reconsultadas em 26 de setembro de 2026. Esta unidade cobre o item 5.7 — Emprego do sinal indicativo de crase de Língua Portuguesa do Cargo 1 — Inspetor de Polícia Penal.

  • SECRETARIA DE ESTADO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA DO MARANHÃO; CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — SEAP/MA — Inspetor e Monitor, de 21 de julho de 2026. Item 22.2.3, Língua Portuguesa, item 5.7: “Emprego do sinal indicativo de crase”. Documento oficial. SEAP-F03 mantém a reconsulta global de atos posteriores.
  • A consolidação SEAP-P01 já incorpora o Edital nº 2, de 24/09/2026, sem alteração programática registrada para este recorte.

Regra, casos e preferências editoriais

Questões anteriores revalidadas

As três questões locais são adaptações não literais.

Questão localProva originalFenômenoGabarito original / local
q3659Fundação Getulio Vargas — Prefeitura de Canaã dos Carajás/Pará — Professor de Língua Portuguesa, Tipo 1, 2025, questão 51crase obrigatória × contextos facultativosC / D
q3660Fundação Getulio Vargas — Assembleia Legislativa do Estado de Goiás — Analista Administrativo, Tipo 1, 2026, questão 7crase correta × acento indevidoA / A
q3667Fundação Getulio Vargas — Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão — Revisor, Tipo 1, 2013, questão 48facultatividade diante de nome próprio femininoC / C

Fontes primárias:

Proveniência, adequação integral e fronteiras

  • Unidade e destino: SEAP-U015, identidade seap-u015, ordem 15, destino src/content/assuntos/seap-ma-2026-inspetor-policia-penal/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/crase/.
  • Origem imediata: pacote físico/local da PC-MA em src/content/assuntos/pc-ma-2026-oficial-investigador/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/crase/, sem vinculo.json. Blobs auditados: C 14b5a823fffb352700485ca0c2d240871ec76a6b, H 674439ecfc0799cfd6c46a602e653781bf24f212, Q 7db470871ff99e02e341a6e7669a17f9ef8db699, R 81899a40c6977266fba7e5d355e13d7d6e1b5d20.
  • Histórico comparativo: o pacote físico resulta de reaproveitamento parcial do canônico src/content/biblioteca/lingua-portuguesa/crase/, atualmente nos blobs C 01474678465e8139d2984c130e8af23285f7c93f, H d0d7508f8af94e2cd58632f4f6de9ceaf5fc4ba2, Q 49ab162c4f281d73380d003b079421d872398701, R c66889720990314b590d7f9f930dc2b5211ab02d; os dois vínculos TCE-MA permanecem somente leitura.
  • Classificação SEAP-R02: integral/local em relação ao pacote físico PC-MA. A dependência U014 está done; o recorte do item 5.7 coincide integralmente.
  • Revisão pedagógica: C/H foram lidos integralmente. A aula começa pelo mecanismo preposição + artigo/demonstrativo, usa o masculino apenas como confirmação, separa ausência de artigo, facultatividade real, demonstrativos/relativos, topônimos, locuções e horários, e fecha com reescrita estrutural. O capítulo usa a regência de U014 como pré-requisito já ensinado sem repetir a unidade. Não houve ganho proporcional em ampliar ou reorganizar C/H.
  • Adaptação material: C muda só storageId: pc-u015 → storageId: seap-u015; H permanece idêntico. Q mantém 24 questões, 21 autorais + 3 anteriores; somente microglossário das proveniências é ajustado em q3659, q3660, q3667, revisão 2→3 e questionSetRevision 5→6. Nenhum enunciado, alternativa ou gabarito muda; não há resoluções separadas.
  • Corte: matéria gramatical; sem corte legislativo/jurisprudencial material. Nenhum canônico, consumidor, schema, catálogo ou grupo é alterado.
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