14. Regência verbal e nominal

Relações de dependência entre regentes e complementos, preposições selecionadas, mudanças de sentido, pronomes, relativos e regência nominal.

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Regência verbal e nominal

1. Quem exige a preposição?

Compare três construções hipotéticas: analisar o processo, precisar do processo e ser favorável ao recurso. O tema pode ser parecido, mas a ligação entre as palavras muda. Essa relação é a regência. O termo que determina a construção é o regente; o termo dependente é o regido.

Na regência verbal, o regente é um verbo. Na regência nominal, é um substantivo, adjetivo ou advérbio. A primeira pergunta de prova, portanto, não é “qual preposição aparece?”, mas qual palavra controla a relação e com que sentido está sendo usada?

Em “a equipe precisa de apoio”, de apoio completa a acepção de precisar. Em “a equipe trabalhou com cuidado”, com cuidado acrescenta modo. Nem todo termo preposicionado é complemento exigido pelo verbo.

Objeto direto, objeto indireto e transitividade

Em “a equipe analisou o processo”, o complemento se liga sem preposição exigida: é objeto direto. Em “a equipe obedeceu ao regulamento”, a preposição a integra a relação exigida: o termo é objeto indireto.

A transitividade depende do uso concreto. O mesmo verbo pode mudar de construção quando muda de sentido: aspirar o ar significa inalar; aspirar ao cargo, desejar. Por isso, decorar uma etiqueta fixa para o infinitivo isolado é menos seguro que reconstruir a frase.

A simples presença de preposição também não basta para classificar um objeto como indireto. Em “conhece a si mesmo”, conhecer continua empregado com objeto direto; a preposição decorre da construção com o pronome.

2. O complemento ajuda a escolher o pronome

Na retomada de terceira pessoa, o, a, os, as são formas típicas de objeto direto; lhe, lhes retomam certos objetos indiretos, especialmente os introduzidos por a. Assim, “analisou o processo” → “analisou-o”; “obedeceu ao servidor” → “obedeceu-lhe”.

Não transforme esse contraste em regra mecânica. “Gosta do relatório” passa a “gosta dele”, não a gosta-lhe. E uma pessoa pode ser objeto direto: “informou o servidor” → “informou-o”.

Informar, avisar, pagar, perdoar e agradecer

Informar e avisar admitem dois esquemas tradicionais:

EsquemaExemploRetomada da pessoa
algo a alguéminformou o resultado ao servidorinformou-lhe o resultado
alguém de algoinformou o servidor do resultadoinformou-o do resultado

Não misture os esquemas em uma mesma análise. Com cientificar, a construção segura é cientificar alguém de algo.

Em pagar, perdoar e agradecer, a descrição tradicional distingue a coisa diretamente e a pessoa com a: pagar a dívida ao credor, perdoar a ofensa ao colega, agradecer o auxílio ao servidor. Daí paguei-lhe a dívida e agradeci-lhe o auxílio.

3. Quando o sentido muda, a regência pode mudar

Assistir, aspirar e visar

  • assistir a = presenciar: assistiu ao julgamento; na tradição, retoma-se assistiu a ele, não lhe assistiu nesse sentido;
  • assistir alguém/a alguém = prestar assistência;
  • assistir a alguém = caber como direito: o benefício lhe assiste;
  • assistir em = residir, uso menos frequente.

Aspirar é direto no sentido de inalar (aspirar o ar) e seleciona a no sentido de desejar (aspirar ao cargo).

Visar é direto em visar o alvo e visar o documento. No sentido de ter por objetivo, a forma tradicional é visar ao resultado. O uso direto também é documentado no português brasileiro; diante de infinitivo, o Manual de Comunicação do Senado admite construções como visa reduzir custos. Em prova normativa, leia o comando antes de transformar preferência em proibição universal.

Agradar, querer, implicar, proceder e responder

Agradar a alguém, no sentido de satisfazer: a decisão agradou aos servidores. Já agradar a criança, sem preposição, pode significar acariciar.

Querer algo é desejar; querer a alguém pode significar estimar.

Na construção tradicional, implicar algo = acarretar: a falha implicou custos. Implicar com alguém = antipatizar/provocar; implicar alguém em algo = envolver.

Com proceder, compare: a alegação procede = tem fundamento; o documento procede de outra unidade = tem essa origem; a comissão procedeu à análise = realizou-a.

Responder admite relações diferentes: responder ao examinador, responder à pergunta, responder que concordava, responder pelos próprios atos.

Obedecer e preferir

Na norma tradicional, obedecer/desobedecer a: obedecer às normas, obedecer-lhes. O emprego direto existe no uso brasileiro, mas a construção com a é a resposta conservadora em prova normativa.

Preferir X a Y já estabelece uma comparação: prefiro a análise cuidadosa à decisão precipitada. Evite, nessa construção tradicional, preferir mais, preferir antes e preferir X do que Y.

4. Construções pronominais e variantes

Compare os dois esquemas tradicionais:

  • lembrar/esquecer algo: lembrei o prazo; esqueci-o;
  • lembrar-se/esquecer-se de algo: lembrei-me do prazo; esqueci-me dele.

A mudança exige ajustar pronome e preposição juntos. Esqueci do prazo é frequente no português brasileiro, mas não corresponde a nenhum dos dois esquemas conservadores acima.

Em custar a alguém + infinitivo, o fato difícil funciona como sujeito: custou-me aceitar a decisão. A pessoa não deve ser transformada automaticamente em sujeito.

Chamar também muda de construção conforme o sentido. Em chamou o servidor, significa convocar. Quando atribui nome ou qualidade, admitem-se construções como chamou o servidor de imprudente e chamou ao servidor imprudente em descrições tradicionais. Em prova, identifique primeiro se há convocação ou atribuição de qualidade; não trate todas as formas como equivalentes sem considerar o padrão pedido.

Alguns verbos admitem mais de uma regência sem mudança necessária de sentido. São documentadas, conforme a acepção, construções como atender o usuário/ao usuário, usufruir os benefícios/dos benefícios, presidir a sessão/à sessão e deparar com/deparar-se com. A existência de uma variante não licencia qualquer preposição.

5. Regência nominal

Nomes também selecionam relações. Em “a equipe é favorável ao recurso”, quem determina a é favorável, não o verbo ser.

Relações frequentes

RegenteConstrução segura
acesso, adesão, alusão, referênciaa
necessidadede
compatibilidade, conformidadecom
capacidadede/para
favorável, fiel, inerente, preferível, sensívela
adequado, aptoa/para
alheioa/de
compatívelcom
digno, passível, oriundode
hábilem
responsávelpor
gratoa alguém por algo
longe, perto, independentementede
relativamente, contrariamente, anteriormente, posteriormentea

Quando há duas preposições, verifique se são alternativas ou se introduzem papéis diferentes. Em grato ao servidor pelo auxílio, a introduz o destinatário da gratidão e por, o motivo.

6. A preposição também aparece antes de oração e relativo

Queísmo e dequeísmo

A relação não desaparece porque o complemento virou uma oração. Compare certeza disso → certeza de que o pedido será aceito; necessitamos disso → necessitamos de que os dados sejam revistos; afirmou isso → afirmou que o prazo mudou.

A supressão indevida de preposição exigida antes de que é queísmo; a inserção indevida de de é dequeísmo. O teste prático é substituir a oração por isso e observar a relação pedida pelo regente.

Pronome relativo

Quando que retoma um nome anterior, ele é pronome relativo. Reconstrua a frase simples e preserve a preposição:

Construção básicaForma relativa
preciso do processoprocesso de que preciso
assisti à sessãosessão a que assisti
aspiro ao cargocargo a que aspiro
confio na normanorma em que confio
obedeci à servidoraservidora a quem obedeci

A preposição vem antes do relativo porque continua ligada ao regente que aparece depois.

Onde e aonde

Onde corresponde, nos usos de lugar aqui relevantes, a em que: a cidade onde moro. Aonde incorpora a preposição a: a cidade aonde vou, se a construção é ir a. No padrão conservador de prova, use ir a/para, chegar a, voltar a/para para destino e voltar de para origem. Movimento, sozinho, não decide: o caminho por onde passei; a cidade de onde voltei; para onde fui.

7. Consequências: passiva, crase e reescrita

A regência ajuda a explicar outras matérias, mas não as substitui. Na transformação regular para a voz passiva, é o objeto direto que pode tornar-se sujeito paciente. Pagaram a dívida → a dívida foi paga. Não transforme mecanicamente aspirar ao cargo em passiva com o mesmo sentido.

Com se, compare vendem-se imóveis (há sujeito paciente) com assiste-se a palestras e obedece-se às normas na análise tradicional: os complementos continuam indiretos e o verbo fica no singular. O aprofundamento da concordância está na unidade própria.

Na crase, a regência fornece apenas uma das peças. Assistir a + artigo a → assistir à sessão; favorável a + artigo a → favorável à medida. Os demais casos e bloqueios pertencem à unidade de Crase.

Em reescrita, não faça um único complemento servir automaticamente a regentes incompatíveis. Assistiu e gostou da sessão deve ser reconstruído: assistiu à sessão e gostou dela; ou a sessão a que assistiu e de que gostou. O estudo sistemático das transformações fica em Reorganização de orações e períodos.

Checklist de prova

  1. Qual é o regente?
  2. Qual sentido ele tem no contexto?
  3. O termo é complemento exigido ou circunstância?
  4. A preposição foi mantida com pronome, oração ou relativo?
  5. Uma mudança de regência mudou também o sentido?
  6. Há variante documentada ou o comando exige a forma tradicional?
  7. A reescrita preserva simultaneamente sentido e relação sintática?
Referências

Referências — Regência verbal e nominal

Recorte e proveniência

Fontes primárias reconsultadas em 26 de setembro de 2026. Esta unidade cobre o item 5.6 — Regência verbal e nominal de Língua Portuguesa do Cargo 1 — Inspetor de Polícia Penal.

  • SECRETARIA DE ESTADO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA DO MARANHÃO; CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — SEAP/MA — Inspetor e Monitor, de 21 de julho de 2026. Item 22.2.3, Língua Portuguesa, item 5.6: “Regência verbal e nominal”. Documento oficial. O programa foi reconferido textual e visualmente; SEAP-F03 permanece responsável pela reconsulta global de atos posteriores.
  • A consolidação SEAP-P01 já incorpora o Edital nº 2, de 24/09/2026, nos efeitos de cronograma identificados, sem alteração programática registrada para este recorte.

Regência, variantes e interfaces

  • AULETE DIGITAL / LEXIKON. Regência. Base para regente/regido, transitividade, pronomes e construções verbais frequentes.
  • SENADO FEDERAL. Regência nominal. Relações preposicionais de nomes e variantes documentadas; reconsultado em 26/09/2026.
  • SENADO FEDERAL. Visar. O manual prefere visar a no sentido de ter por objetivo e dispensa a preposição diante de infinitivo; orientação editorial explicitada como tal na aula.
  • ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS; Evanildo Bechara. Os relativos e as preposições (conclusão). Apoio à reconstrução da oração relativa e preservação da preposição.
  • AULETE DIGITAL. Verbetes informar, avisar, cientificar, agradecer, visar, implicar, preferir e custar.

Questões anteriores revalidadas

As três questões locais com origin: previous_exam são adaptações não literais. Os cadernos e gabaritos definitivos foram reconsultados em 26/09/2026.

Questão localProva originalFenômenoGabarito
q3519Fundação Getulio Vargas — Assembleia Legislativa do Estado de Goiás — Analista Legislativo, Analista Administrativo, Tipo 1, 2026, questão 4agradecer: coisa como objeto direto e pessoa como objeto indiretoE
q3520Fundação Getulio Vargas — Prefeitura de Canaã dos Carajás/Pará — Professor de Língua Portuguesa, Tipo 1, 2025, questão 44preposição a exigida por aspirarA
q3523Fundação Getulio Vargas — Tribunal de Contas do Estado de São Paulo — Auxiliar Técnico da Fiscalização, Tecnologia da Informação, Tipo 2, 2023, questão 8preservação da preposição diante de pronome relativoA

Fontes primárias:

Proveniência, adequação integral e fronteiras

  • Unidade e destino: SEAP-U014, identidade seap-u014, ordem 14, destino src/content/assuntos/seap-ma-2026-inspetor-policia-penal/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/regencia-verbal-nominal/.
  • Origem imediata: pacote físico/local da PC-MA em src/content/assuntos/pc-ma-2026-oficial-investigador/conhecimentos-gerais/lingua-portuguesa/regencia-verbal-nominal/, sem vinculo.json. Blobs auditados: C 8ee905b4052ed82dec6bfd8a5019b14bd44c750b, H a54d2e847d7e11c41bd6be9e96408b664d1007e5, Q 7643eae3206061f836700a3b4fd94e429f77c557, R 139992e94a5473f06985bafc4bb5891335fbb758.
  • Histórico comparativo: o pacote físico foi preparado por reaproveitamento parcial do canônico src/content/biblioteca/lingua-portuguesa/regencia-verbal-nominal/, atualmente nos blobs C a5efc67070fd7767f67cd900742ca9c280038dc1, H 5e0d4dc9eda4a734cd51d3bd71364a2eb0202f14, Q 65d9b5e5194f0d2fdd6d01029f5727965902af7a, R 5fb9ad508b2253aad89cb436b83f4dbccff06c9a; vínculos explícitos dos dois cargos do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão permanecem somente leitura.
  • Classificação SEAP-R02: integral/local em relação ao pacote físico PC-MA. O item 5.6 da Secretaria coincide com o recorte local. Não se cria vinculo.json para a visão SEAP.
  • Revisão pedagógica: C/H foram lidos integralmente. A aula começa pela pergunta “quem exige a preposição?”, constrói regente/regido e transitividade pelo contexto antes das listas, organiza verbos por mudança de sentido, pronomes e dois complementos, regência nominal, orações/relativos e onde/aonde, e termina mostrando as interfaces com passiva, crase e reescrita. U015 recebe apenas a ponte necessária para crase. Não houve ganho proporcional em ampliar ou reorganizar C/H.
  • Adaptação material: C muda apenas storageId: pc-u014 → storageId: seap-u014; H permanece byte a byte idêntico. Q mantém 24 questões, 21 autorais e três adaptações, sem alteração de enunciado, alternativas, gabaritos ou origin. Apenas o microglossário institucional das três explicações é corrigido: q3519, q3520, q3523 revisão 2→3; questionSetRevision 5→6. Não há resolucoes/*.md.
  • Corte: assunto gramatical, sem corte legislativo/jurisprudencial material. Origem física, biblioteca, consumidores, schemas, catálogo e grupos não são alterados.
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