Almoxarifado e armazenamento

Almoxarifado, armazenagem, localização, conservação, slotting, espaço, segurança, sistemas, indicadores e auditoria.

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Almoxarifado e armazenamento

O sistema informa 40 unidades de um material. A contagem confirma 40, mas 12 estão em posições diferentes das registradas. O saldo está certo; o almoxarifado, não. Guardar materiais significa manter quantidade, localização, condição e disponibilidade coerentes ao mesmo tempo.

Modelo mental: identificar → endereçar → armazenar → preservar → movimentar e registrar → aplicar a rotação → inspecionar → tratar desvios.

O Edital nº 1/2026 do TCE-MA, publicado em 6 de julho de 2026, inclui neste assunto: funções, princípios e objetivos do almoxarifado; controle, registro, conservação e recuperação de material; técnicas de armazenamento; utilização do espaço; e segurança.

A IN SEDAP nº 205/1988 é uma referência operacional do SISG federal. Ela não se aplica automaticamente ao TCE-MA, mas fornece conceitos clássicos cobrados em administração de materiais. As NR têm campos de aplicação próprios; quando utilizadas aqui, servem para compreender os requisitos de segurança pertinentes. A redação da NR 1 que entrou em vigor em 26 de maio de 2026 já integra o corte do edital.

1. O que o almoxarifado precisa entregar

1.1 Unidade, atividade e estoque

Três conceitos próximos não são sinônimos:

ConceitoPergunta que respondeNúcleo
almoxarifadoquem/onde guarda e controla?unidade organizacional e instalação destinadas à custódia e ao controle de materiais
armazenagemo que se faz com o material guardado?guarda, localização, segurança e preservação
estoqueo que existe para uso futuro?conjunto de itens e quantidades mantidos para atender necessidades

A IN SEDAP nº 205/1988 define armazenagem como a guarda, localização, segurança e preservação do material adquirido para suprir as necessidades operacionais.

Isso ajuda a separar fronteiras. Comprar obtém o material; receber e aceitar verificam a entrega; armazenar conserva e localiza; distribuir entrega ao usuário; inventariar confronta físico e registro; alienar dá destinação jurídica ao bem. Esses processos se conectam, mas não devem ser confundidos.

1.2 Objetivos e funções

Um almoxarifado bem administrado busca manter o material:

  • disponível: apto a atender a demanda autorizada;
  • localizável: endereço físico conhecido e atualizado;
  • íntegro: protegido contra deterioração, avaria, contaminação e extravio;
  • identificado: código, descrição, lote, série ou validade preservados quando pertinentes;
  • rastreável: cada movimento pode ser relacionado a origem, destino, responsável e documento;
  • seguro: carga, estrutura, circulação, equipamento e pessoas operam dentro dos limites aplicáveis;
  • economicamente organizado: espaço, percurso e manipulação são usados sem criar riscos ou perdas maiores.

Desses objetivos decorrem funções como endereçar, guardar, registrar movimentações, conservar, separar materiais incompatíveis, acompanhar validade e condição, restringir acessos quando necessário e fornecer informação confiável para reposição e inventário.

A meta não é “encher o prédio”. Densidade é apenas uma variável. Um depósito lotado, sem seletividade e com rotas de emergência obstruídas pode ter alta ocupação e baixa qualidade operacional.

2. Controle: o material físico precisa ter um endereço informacional

2.1 A cadeia mínima

O controle interno liga quatro elementos:

material físico
+ endereço
+ registro
+ documento que justifica o movimento

Se um desses elos falha, a rastreabilidade se rompe. Uma etiqueta não prova que a quantidade existe; um saldo correto não prova que o endereço está correto; uma movimentação física sem atualização pode tornar o sistema temporariamente falso.

2.2 Código não é endereço

O código do material responde “qual item é este?”. O endereço de armazenagem responde “onde ele está?”. Um mesmo código pode ocupar mais de uma posição, desde que o sistema registre todas elas e seus respectivos saldos.

Um endereço pode ser estruturado, por exemplo, em zona, corredor, módulo, nível e posição. O formato específico importa menos que três propriedades:

  1. cada posição precisa ser identificável sem ambiguidade;
  2. o mapa físico e o cadastro precisam representar a mesma estrutura;
  3. a atualização deve acompanhar a movimentação.

2.3 Localização fixa, dinâmica e híbrida

MétodoComo funcionaPrincipal cuidado
fixacada item tem posição previamente reservadapode deixar espaço ocioso quando o saldo cai
dinâmica ou livreo item ocupa posição disponível e compatívelexige registro tempestivo de cada alocação e retirada
híbridacombina regras, como separação fixa e reserva dinâmicaprecisa controlar a passagem entre as áreas

“Livre” não significa “sem endereço”. Na localização dinâmica, o endereço muda; justamente por isso, o registro precisa ser ainda mais confiável.

A decisão sobre o melhor endereço de cada item é chamada slotting. Ela combina, entre outros fatores:

  • giro ou frequência de acesso;
  • massa e volume;
  • fragilidade;
  • validade;
  • criticidade para o serviço;
  • valor e facilidade de subtração;
  • compatibilidade entre materiais;
  • equipamento e rota disponíveis.

Alto giro costuma favorecer proximidade da separação, mas não supera segurança. Um item pesado ou incompatível pode exigir nível inferior ou área segregada mesmo que isso aumente o percurso.

2.4 Registro tempestivo e qualidade dos dados

Um registro de almoxarifado deve ser:

  • completo: contém os campos necessários;
  • exato: corresponde ao fato físico;
  • consistente: não contradiz outros registros;
  • tempestivo: é lançado sem atraso capaz de comprometer o controle;
  • único quando precisa identificar item, lote, série ou endereço;
  • rastreável: preserva quem fez, quando fez e por qual documento.

Relatórios de exceção são mais úteis que a simples existência do sistema. Exemplos: saldo em posição inexistente, lote vencido liberado, item bloqueado tratado como disponível, endereço físico divergente, série duplicada ou movimento sem documento.

2.5 Acurácia: quantidade e localização são dimensões diferentes

Uma forma de medir a acurácia de saldo é:

acuraˊcia de saldo=itens sem divergeˆncia de quantidadeitens verificados×100\text{acurácia de saldo}= \frac{\text{itens sem divergência de quantidade}} {\text{itens verificados}}\times100

Para localização:

acuraˊcia de localizac¸a˜o=itens encontrados no enderec¸o corretoitens testados×100\text{acurácia de localização}= \frac{\text{itens encontrados no endereço correto}} {\text{itens testados}}\times100

Exemplo hipotético. Em 200 itens testados, 190 têm quantidade correta: acurácia de saldo de 95%. Se apenas 180 estão no endereço registrado, a acurácia de localização é 90%. Não existe contradição: são problemas distintos.

Ao comparar indicadores, declare universo, amostra, unidade e tolerância. Alterar o método entre períodos pode criar uma melhora ou piora apenas aparente.

2.6 Tecnologia ajuda; processo continua necessário

Um WMS pode controlar endereços, tarefas, lotes, regras de separação e histórico. Código de barras e QR reduzem digitação; RFID permite identificação por radiofrequência sem depender da mesma linha de visada de um código óptico.

Nenhuma dessas tecnologias prova, sozinha, quantidade, condição, propriedade ou regularidade do material. Uma etiqueta RFID pode ser lida em uma caixa vazia; um WMS pode mostrar o endereço errado se a movimentação não foi registrada.

Também é necessário prever contingência. Se o sistema ficar indisponível, movimentos excepcionais devem manter identificação, data efetiva, responsável e documento para posterior reconciliação. Sincronizar depois não autoriza apagar a diferença entre a hora do fato e a hora do lançamento.

3. Conservação, condição e recuperação

3.1 Conservar é prevenir

Conservação procura impedir que o material perca a aptidão de uso. O controle depende das características do item e pode envolver:

  • proteção contra umidade, calor, luz, poeira e intempéries;
  • inspeção de embalagem e lacres;
  • controle de pragas e contaminação;
  • estabilidade de pilhas e cargas;
  • segregação de produtos incompatíveis;
  • controle de temperatura ou outra condição ambiental quando necessária;
  • preservação da embalagem original quando ela é parte da proteção;
  • inspeções periódicas e registro de anomalias.

A IN SEDAP nº 205/1988 orienta, entre outros cuidados, proteger contra furto, perigos mecânicos, clima e animais daninhos; evitar contato direto com o piso; facilitar inspeção; e manter a face de identificação voltada para o acesso.

3.2 Disponibilidade não é a mesma coisa que condição física

Um material pode estar fisicamente íntegro e, ainda assim, indisponível por estar reservado ou em inspeção. Também pode estar avariado e, por isso, bloqueado. Se essas categorias forem somadas como se fossem independentes, ocorre dupla contagem.

Convém separar duas dimensões:

DimensãoExemplos
situação de disponibilidadedisponível, reservado, em inspeção, bloqueado, quarentena
condição do materialíntegro, avariado, vencido, contaminado, suspeito

Uma representação segura é:

saldo utilizaˊvel=saldo fıˊsicoquantidades indisponıˊveis, sem dupla contagem\text{saldo utilizável}=\text{saldo físico}-\text{quantidades indisponíveis, sem dupla contagem}

Portanto, não se deve subtrair automaticamente “bloqueado + avariado + quarentena” se o mesmo lote pertence a mais de uma dessas categorias.

3.3 Não conformidade: primeiro impedir o uso indevido

Quando há vazamento, dano, validade vencida, contaminação ou dúvida relevante, o fluxo básico é:

identificar
→ interromper o uso ou movimento inseguro
→ bloquear
→ segregar de forma compatível
→ registrar
→ avaliar
→ decidir
→ liberar somente após decisão registrada

A segregação pode ser física, sistêmica ou ambas, conforme o risco. O ponto essencial é impedir que material pendente seja confundido com saldo liberado.

3.4 Recuperar é corrigir depois da avaria

Conservação evita a deterioração; recuperação busca restabelecer a utilidade de material avariado quando isso for tecnicamente, economicamente e juridicamente adequado.

Na referência federal da IN SEDAP nº 205/1988, a recuperação é considerada viável quando a despesa envolvida orça, no máximo, 50% do valor estimado de mercado do bem móvel. Essa regra pertence ao regime da própria instrução e não deve ser transformada em percentual universal do TCE-MA.

Mesmo dentro do âmbito da instrução, “abaixo de 50%” não significa reparar cegamente. Segurança, possibilidade técnica, vida útil restante, peças, prazo, custo de indisponibilidade e decisão competente continuam relevantes.

4. Rotação, acondicionamento e movimentação

4.1 A rotação evita envelhecimento e vencimento

A IN SEDAP nº 205/1988 adota o princípio físico PEPS: materiais estocados há mais tempo devem, em regra, ser fornecidos primeiro para reduzir envelhecimento.

Para itens sujeitos a validade, é comum usar FEFO, também expresso em português como PVPS: sai primeiro o lote liberado com vencimento mais próximo.

Exemplo hipotético. O lote A entrou em janeiro e vence em dezembro; o lote B entrou em fevereiro e vence em junho. Pelo PEPS, A teria prioridade pela entrada. Pelo FEFO, B sai antes porque vence primeiro.

Nenhuma regra de rotação autoriza fornecer vencido, avariado ou bloqueado. Também não confunda PEPS físico, que orienta qual lote real sai, com um método contábil de atribuição de custos.

4.2 Unitização e paletização

Unitização reúne volumes menores em uma unidade de movimentação. A paletização é uma forma de unitização: caixas ou outros volumes são organizados sobre um palete para facilitar movimentação, armazenagem e transporte.

Palete, carga, estrutura e equipamento formam um sistema. O palete não aumenta por si só a capacidade do piso, da estante ou da empilhadeira.

Duas classificações de paletes respondem a perguntas diferentes:

  • uma ou duas faces: quantas faces estruturais o palete possui;
  • duas ou quatro entradas: por quantos lados os garfos podem entrar.

Logo, “duas faces” não significa “quatro entradas”. A necessidade de acesso dos equipamentos se relaciona ao número e à disposição das entradas, não ao número de faces.

4.3 Arrumação: regras clássicas e seus limites

Entre as orientações da IN SEDAP nº 205/1988 estão:

  • itens de maior movimentação em locais de fácil acesso e próximos da expedição;
  • materiais pesados ou volumosos nas partes inferiores;
  • materiais da mesma classe em áreas adjacentes quando isso for compatível com a segurança;
  • material fora do contato direto com o piso;
  • identificação voltada ao lado de acesso;
  • pilhas organizadas sem comprometer qualidade, arejamento, circulação ou emergência;
  • aproximadamente 70 cm do teto e 50 cm das paredes na orientação de empilhamento da própria instrução.

Esses números não substituem projeto, regra de incêndio, especificação do fabricante nem requisito especial do material. Além disso, a NR 11 exige, para material empilhado, afastamento de pelo menos 0,50 m das estruturas laterais do prédio.

4.4 Princípios de movimentação

Movimentar bem significa reduzir trabalho que não agrega controle nem disponibilidade. São ideias úteis:

  • mínima distância: aproximar etapas que interagem, sem criar incompatibilidade ou risco;
  • mínima manipulação: reduzir reempilhamentos, transferências e toques desnecessários;
  • fluxo: evitar retornos, zigue-zague e cruzamentos desnecessários;
  • carga unitária: mover conjunto estável quando isso for apropriado;
  • uso cúbico: aproveitar altura e volume sem exceder capacidade nem sacrificar acesso;
  • padronização e flexibilidade: usar meios compatíveis, mas capazes de responder à variedade real do estoque.

O melhor princípio não é o que produz a menor distância isoladamente. Se aproximar dois produtos cria incompatibilidade química ou bloqueia uma rota de emergência, a solução deixa de ser boa.

5. Espaço e leiaute: densidade, seletividade e fluxo

5.1 Área total não é área útil de armazenagem

O volume bruto do prédio inclui corredores, rotas de fuga, docas, pilares, áreas técnicas, folgas, zonas de inspeção e outros espaços que não podem ser preenchidos com estoque. Por isso, capacidade precisa ser tratada como capacidade útil e segura.

Um leiaute eficiente busca, ao mesmo tempo:

  • fluxo coerente entre entrada, guarda, separação e saída;
  • acesso ao item sem movimentações excessivas de outras cargas;
  • circulação compatível com pessoas e equipamentos;
  • preservação das rotas e medidas de emergência;
  • possibilidade de inspeção e inventário;
  • expansão ou mudança quando demanda, equipamento ou processo se alterarem.

5.2 Horizontalizar ou verticalizar

  • horizontalização: usa predominantemente o plano do piso; pode simplificar acesso, mas consome mais área e aumentar percursos;
  • verticalização: utiliza níveis superiores; aumenta a densidade potencial, mas exige estrutura, equipamento, estabilidade, operação e emergência compatíveis.

Empilhadeira que alcança níveis altos apoia a verticalização; ela não torna ilimitada a capacidade do piso ou da estante.

5.3 Seletividade e sistemas de armazenagem

Seletividade é a facilidade de acessar uma unidade de carga sem remover outras. Maior densidade frequentemente reduz seletividade; por isso, o sistema deve refletir o perfil do material.

SistemaOnde tende a funcionar bemPrincipal limite
empilhamento em blococargas homogêneas, estáveis e empilháveisbaixa seletividade e compressão
porta-paletes seletivoacesso direto a cada paletedensidade relativa menor
drive-in/drive-throughmuitos paletes homogêneosacesso e sequência mais restritos
flow rackrotação por gravidade e fluxo ordenadocusto, manutenção e compatibilidade da carga
cantilevertubos, perfis e outros itens longosexige apoio e estabilidade adequados
mezaninoampliação de área operacional em níveisdepende de projeto estrutural e circulação segura

Não existe sistema universalmente superior. Variedade, giro, massa, dimensão, validade, densidade desejada, equipamento e risco orientam a escolha.

5.4 Reserva, separação, reposição e área temporária

Em operações com volume suficiente, um mesmo item pode aparecer em zonas funcionalmente diferentes:

  • reserva: concentra maior quantidade e menor frequência de acesso;
  • picking: mantém quantidade preparada para separação frequente;
  • reposição interna: transfere material da reserva para o picking;
  • staging: permanência temporária ligada a um fluxo;
  • bloqueados/quarentena: material indisponível até decisão.

Saldo total suficiente com picking vazio não significa necessariamente ruptura global: pode haver falha de reposição interna. A transferência deve registrar origem, destino, quantidade, lote quando aplicável e momento.

Staging não deve virar estoque permanente improvisado em corredor.

5.5 Fluxo com pouca ou nenhuma estocagem

cross-docking reduz a permanência do material ao coordenar chegada, triagem e saída. Pode utilizar staging, mas não elimina conferência, informação ou rastreabilidade.

Se chegada e saída não estiverem sincronizadas, a área temporária congestiona e o fluxo pode virar armazenagem não planejada.

5.6 Medir espaço sem premiar congestionamento

Duas medidas úteis são:

ocupac¸a˜o de posic¸o˜es=posic¸o˜es ocupadasposic¸o˜es utilizaˊveis×100\text{ocupação de posições}= \frac{\text{posições ocupadas}} {\text{posições utilizáveis}}\times100 utilizac¸a˜o cuˊbica=volume efetivamente ocupadovolume uˊtil e seguro×100\text{utilização cúbica}= \frac{\text{volume efetivamente ocupado}} {\text{volume útil e seguro}}\times100

Honeycombing ocorre quando posições parecem ocupadas, mas parte relevante de sua capacidade fica perdida. Assim, 90% das posições ocupadas pode coexistir com baixa utilização cúbica.

Alta ocupação também pode reduzir seletividade. Se três paletes precisam ser removidos para acessar um quarto, aumentar ainda mais a densidade provavelmente piorará tempo, risco e custo de movimentação.

Em questões de capacidade, posições são indivisíveis. Se 100.000 caixas precisam ser armazenadas e cada posição comporta três paletes de 50 caixas, a capacidade por posição é 150 caixas:

100000150=666,67\frac{100000}{150}=666{,}67

São necessárias 667 posições, não 666.

6. Segurança: capacidade, circulação e risco

6.1 O risco vem do sistema, não de um único objeto

A mesma caixa pode ser segura no piso e perigosa no alto; a mesma empilhadeira pode ser adequada com uma carga e instável com outra. Avalie em conjunto:

  • material e condição da embalagem;
  • massa, dimensões e centro de carga;
  • piso, estante, palete e acessórios;
  • equipamento de movimentação;
  • pessoas, rotas e cruzamentos;
  • ambiente e incompatibilidades;
  • medidas de emergência.

6.2 Gerenciamento de riscos e programa de gerenciamento

A NR 1 estrutura o GRO. O PGR deve conter, no mínimo, inventário de riscos e plano de ação.

O raciocínio operacional é:

identificar perigos
→ avaliar e classificar riscos
→ definir medidas
→ planejar responsáveis e prazos
→ implementar
→ acompanhar a eficácia
→ revisar quando necessário

Na ordem de prioridade da NR 1, devem ser priorizados:

  1. eliminação dos fatores de risco;
  2. minimização e controle com medidas de proteção coletiva;
  3. medidas administrativas ou de organização do trabalho;
  4. EPI.

Portanto, EPI não transforma estante instável, carga acima da capacidade ou rota obstruída em condição aceitável.

A avaliação deve ser revista, entre outras hipóteses, após mudanças que criem ou modifiquem riscos, quando medidas forem inadequadas ou ineficazes, após acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho e quando requisitos legais aplicáveis mudarem. Eventos perigosos com potencial de consequências graves também devem ser analisados.

6.3 Armazenamento e equipamentos: requisitos da Norma Regulamentadora 11

A NR 11 estabelece, entre outros pontos:

  • equipamentos de movimentação devem oferecer resistência e segurança e ser mantidos em condições de trabalho;
  • a carga máxima de trabalho permitida deve estar indicada de forma visível;
  • componentes e transportadores devem ser inspecionados e defeitos tratados;
  • operadores de equipamentos motorizados devem atender aos requisitos de treinamento e habilitação previstos;
  • o peso armazenado não pode exceder a capacidade de carga calculada do piso;
  • portas, equipamentos contra incêndio e saídas de emergência não podem ser obstruídos;
  • a carga não pode dificultar trânsito, iluminação nem acesso às saídas;
  • cada tipo de material deve obedecer aos requisitos especiais de segurança que lhe forem aplicáveis.

O Anexo I da NR 11 trata especificamente de chapas de rochas ornamentais. Suas medidas para cavaletes e equipamentos não devem ser generalizadas para qualquer almoxarifado.

6.4 Empilhadeira e centro de carga

A capacidade nominal de uma empilhadeira vale para as condições previstas pelo fabricante. Centro de carga é, de forma simplificada, a distância horizontal entre a face de apoio dos garfos e o centro de gravidade da carga.

Quanto mais o centro de gravidade se afasta do mastro, maior o momento que tende a tombar o equipamento. Por isso, uma carga pode estar abaixo do peso nominal e ainda assim exceder a capacidade efetiva para aquela geometria ou altura.

Em prova, desconfie da frase “a empilhadeira suporta X kg em qualquer posição”. Consulte a placa de capacidade, o manual e as condições reais de operação; não deduza capacidade pela aparência da máquina.

6.5 Ergonomia na movimentação manual

A NR 17 não fornece um único “peso seguro” válido para toda pessoa e tarefa. Ela proíbe exigir ou admitir transporte manual cujo peso seja suscetível de comprometer a saúde ou a segurança e exige considerar a situação de trabalho.

Na movimentação individual não eventual, são relevantes:

  • peso e dimensões;
  • pega;
  • postura;
  • frequência e duração;
  • alturas de pega e deposição;
  • distância percorrida;
  • meios técnicos auxiliares.

A norma também veda o levantamento não eventual que possa comprometer saúde e segurança quando o alcance horizontal da pega for superior a 60 cm em relação ao corpo.

6.6 Incêndio: norma federal e regra estadual precisam conversar

A NR 23 determina que as medidas de prevenção contra incêndios observem a legislação estadual e, complementarmente, as normas técnicas oficiais aplicáveis. Também exige informação aos trabalhadores e preservação de saídas de emergência.

No Maranhão, o referencial inclui a Lei Estadual nº 11.390/2020 e as normas técnicas do CBMMA, entre elas a NT 01, atualizada em 2024.

Isso impede duas simplificações:

  • a NR 23 não define sozinha todos os extintores, distâncias e medidas de uma edificação;
  • um PGR não substitui projeto, licenciamento, instalação, inspeção e manutenção das medidas de incêndio exigidas para a edificação.

Mudança de leiaute, ocupação, material ou carga de incêndio pode exigir reavaliação das medidas aplicáveis.

6.7 Produtos químicos e comunicação de perigos

A NR 26 exige classificação dos perigos químicos segundo o GHS e disciplina a rotulagem preventiva.

Para produto químico perigoso, a rotulagem inclui identificação e composição, pictogramas, palavra de advertência, frases de perigo, frases de precaução e informações suplementares. O fabricante ou fornecedor deve disponibilizar a FDS nas situações previstas, e os trabalhadores devem ter acesso às FDS dos produtos que utilizam e receber treinamento pertinente.

A cor comunica; não elimina o risco. Rótulo correto em embalagem vazando não substitui bloqueio, contenção, segregação e resposta adequada.

7. Integração e auditoria

7.1 Quatro situações que condensam o assunto

Situação 1 — saldo certo, endereço errado. A quantidade total pode estar correta enquanto a localização está incorreta. Corrija endereço e, principalmente, a causa do movimento sem registro.

Situação 2 — lote mais novo vence primeiro. Para material sujeito a validade, FEFO pode divergir do PEPS. A condição de liberação vem antes da ordem de rotação.

Situação 3 — 96% de ocupação e três movimentações para acessar um palete. O indicador de densidade não prova eficiência; a seletividade e o fluxo estão degradados.

Situação 4 — caixa vazando. Não a devolva à posição liberada “até alguém decidir”. Interrompa, identifique, bloqueie, segregue conforme o risco, registre e avalie.

7.2 Como transformar uma falha em achado

Um achado de auditoria fica mais útil quando separa:

ElementoExemplo
critérioprocedimento exige atualização do endereço no momento da alocação
condiçãoparte dos itens está em posições diferentes das registradas
causalançamento é feito apenas ao fim do turno
efeitobuscas, separações erradas e falsa impressão de falta
evidênciainspeção física, registros e documentos de movimentação
encaminhamentoregistrar na alocação, tratar exceções e acompanhar tempestividade

Corrigir apenas o saldo ou o endereço encerra o sintoma; não evita reincidência.

8. Síntese do mecanismo

Uma armazenagem madura preserva simultaneamente disponibilidade, localização, condição, rastreabilidade e segurança.

O fluxo de decisão é:

  1. identificar material, condição e riscos;
  2. escolher endereço compatível com massa, giro, volume, validade e incompatibilidades;
  3. guardar dentro da capacidade de piso, estrutura, palete e equipamento;
  4. registrar endereço, quantidade, lote ou série e documento aplicável;
  5. aplicar PEPS ou FEFO conforme a natureza do material, sem liberar item impróprio;
  6. inspecionar conservação, validade, acesso e emergência;
  7. bloquear e segregar desvios antes de decidir recuperação ou outra providência;
  8. medir acurácia, espaço, avarias e tempestividade sem confundir ocupação com eficiência;
  9. investigar causas e corrigir o processo, não apenas o registro final.
Referências
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